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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Espiritismo e Racismo: quando a caridade também exige a revisão de nossas ideias

Por Leonardo Paixão 

Durante um estudo recente de O Livro dos Espíritos, refletíamos sobre as diversas tradições espiritualistas, suas concepções acerca da comunicação entre os Espíritos e os encarnados e as diferentes compreensões sobre a reencarnação. Em determinado momento, a conversa naturalmente alcançou as religiões de matriz africana e, junto delas, vieram também alguns preconceitos historicamente reproduzidos em nossa sociedade.

Foi uma oportunidade importante para recordar algo que considero fundamental: desconhecimento não pode ser confundido com conhecimento, tampouco preconceito pode ser travestido de convicção religiosa.

Durante séculos, a cultura africana foi perseguida, silenciada e criminalizada no Brasil. Seus ritos foram proibidos, seus sacerdotes perseguidos, seus símbolos demonizados e sua produção de conhecimento considerada inferior. Esse processo não aconteceu por acaso. Foi parte de um projeto colonial que precisava destruir identidades para justificar a escravidão e a dominação. Não bastava explorar corpos; era preciso desqualificar saberes.

Ainda hoje carregamos muitos desses resquícios. Crescemos ouvindo que aquilo que vem da África é "magia negra", "coisa do mal", enquanto práticas semelhantes, quando realizadas em outras tradições religiosas, recebem nomes diferentes e são vistas com maior respeito. Essa diferença de tratamento não nasce da espiritualidade; nasce da história.

Isso não significa afirmar que todas as práticas religiosas sejam iguais, nem que devamos concordar com tudo o que existe em qualquer tradição. Significa apenas reconhecer que nenhuma religião pode ser julgada a partir dos preconceitos herdados de um olhar eurocêntrico.

O próprio Espiritismo nos convida ao estudo, à observação e ao uso da razão. Allan Kardec jamais recomendou condenar aquilo que não conhecemos. Ao contrário, ensinou que devemos investigar antes de formular juízos. A ignorância não pode ocupar o lugar da pesquisa.

Como espíritas, muitas vezes afirmamos que todos somos Espíritos imortais, criados simples e ignorantes, destinados ao progresso. Se levamos essa ideia às últimas consequências, torna-se impossível sustentar qualquer forma de discriminação baseada na origem, na cor da pele, na cultura ou na tradição religiosa de um povo.

Jesus também não perguntou de onde vinham aqueles que acolhia. Não estabeleceu hierarquias entre povos. Sua medida sempre foi o amor, a misericórdia e a justiça.

Por isso, acredito que não basta dizer que não somos racistas. Essa afirmação, por si só, é insuficiente. O racismo também se manifesta quando repetimos estereótipos sem perceber, quando demonizamos culturas que desconhecemos ou quando naturalizamos discursos herdados de uma longa história de colonização.

Ser antirracista é justamente interromper esse ciclo. É reconhecer nossos condicionamentos históricos, revisar nossas certezas e permitir que o conhecimento substitua o preconceito.

Essa postura não pertence à direita nem à esquerda. Pertence à ética. Defender a dignidade humana não deveria ser um marcador ideológico, mas um compromisso civilizatório. É perfeitamente possível defender a democracia, as liberdades individuais, o Estado de Direito e, ao mesmo tempo, reconhecer que a população negra sofreu — e ainda sofre — profundas desigualdades produzidas historicamente. Reconhecer esse fato não é fazer política partidária; é fazer justiça histórica.

Uma casa espírita que estuda Kardec precisa ser, antes de tudo, uma casa aberta ao diálogo, à pesquisa e à humildade intelectual. Afinal, ninguém progride espiritualmente alimentando preconceitos.

Se há algo que o Espiritismo nos ensina é que a evolução moral começa quando abandonamos nossas vaidades, inclusive a vaidade de acreditar que já sabemos tudo.

Talvez uma das formas mais autênticas de praticar a caridade seja justamente esta: permitir que o outro exista em sua diferença sem que nossa ignorância transforme essa diferença em condenação.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Entre o Axé, o Marketing e o Fetichismo: o que a Indústria Cultural realmente nos vende?

 Por Leonardo Paixão


Recentemente, durante uma conversa com uma amiga, surgiu uma reflexão a partir de um conteúdo publicado por uma influenciadora acerca de um videoclipe da cantora Anitta. O vídeo destacava a presença de elementos do Candomblé — religião da qual a artista é iniciada — como expressão de identidade cultural, representatividade e ruptura de preconceitos.

A discussão, entretanto, despertou em mim um questionamento que ultrapassa o campo religioso. Mais do que analisar uma artista ou uma tradição específica, interessa-me compreender os mecanismos sociais, econômicos e culturais que operam na construção dos fenômenos midiáticos contemporâneos.

A questão, portanto, não é o Candomblé, nem Anitta em si. A questão é a lógica que rege a indústria cultural.

Marketing não é apenas publicidade

Existe uma compreensão bastante difundida de que marketing consiste apenas em propaganda. Na realidade, trata-se de um campo muito mais amplo. Marketing envolve pesquisa, leitura de comportamento, identificação de demandas, segmentação de públicos e posicionamento estratégico.

Em outras palavras, antes de vender um produto, vende-se uma narrativa.

Quando artistas de alcance internacional incorporam elementos culturais, religiosos ou identitários às suas produções, é razoável compreender que tais escolhas dialogam, simultaneamente, com dimensões pessoais, artísticas e mercadológicas. Em um mercado altamente competitivo, a atenção tornou-se um dos ativos mais valiosos da economia contemporânea.

Temas que rompem expectativas, desafiam tabus ou mobilizam intensas reações sociais tendem a produzir elevado engajamento. E, na lógica das plataformas digitais, engajamento converte-se em visibilidade; visibilidade converte-se em capital.

Essa dinâmica não constitui, necessariamente, um juízo moral sobre quem produz a obra. Trata-se, antes, da descrição de um funcionamento próprio do capitalismo contemporâneo.

O fetichismo da mercadoria revisitado

Karl Marx, ao desenvolver o conceito de fetichismo da mercadoria, demonstrou como o capitalismo atribui aos produtos uma aparência quase mágica, ocultando as relações sociais que os produzem.

Na indústria cultural, esse fenômeno parece assumir novas configurações.

O que se comercializa já não é apenas uma música, um álbum ou um espetáculo. Comercializam-se estilos de vida, identidades, discursos, símbolos, experiências e imagens cuidadosamente produzidas.

O corpo deixa de ser apenas corpo para tornar-se linguagem de mercado.

A sexualização, a construção de personagens públicos, a permanente exposição da intimidade e a associação da imagem a determinadas causas podem funcionar como elementos de uma mesma estratégia de circulação simbólica. O consumidor deixa de adquirir apenas um produto artístico; passa a consumir um imaginário.

Os corpos entre liberdade e mercado

Michel Foucault demonstrou que o poder moderno não opera apenas por meio da repressão, mas também pela produção de discursos e pela gestão dos corpos.

Posteriormente, Gilles Deleuze descreveu uma sociedade em que os mecanismos de controle tornam-se mais difusos, penetrando os espaços da comunicação, do consumo e da subjetividade.

À luz dessas reflexões, cabe perguntar: quando determinados padrões de comportamento são apresentados como expressão máxima da liberdade, estamos diante de uma emancipação efetiva ou de novas formas de captura do desejo?

Nem toda escolha individual está dissociada das estruturas econômicas que a condicionam. Muitas vezes, aquilo que se apresenta como espontâneo também responde às expectativas do mercado.

O capitalismo contemporâneo revela extraordinária capacidade de absorver discursos de contestação, transformando-os em mercadorias altamente rentáveis.

Cultura, religião e consumo

Esse raciocínio não pretende diminuir a riqueza das religiões de matriz africana nem negar sua profunda importância histórica, social e espiritual. Ao contrário, reconhece sua contribuição para a formação cultural brasileira e reafirma o respeito que toda tradição religiosa merece.

Entretanto, uma questão permanece pertinente: quando símbolos religiosos passam a integrar produtos culturais destinados ao consumo de massa, em que medida continuam sendo expressão de uma vivência espiritual e em que medida tornam-se componentes de uma estratégia de mercado?

Essa pergunta não possui resposta simples. Justamente por isso merece ser feita.

O que isso agrega à nossa formação?

Do ponto de vista filosófico, psicológico e também espiritual, talvez a questão mais importante não seja discutir artistas específicos, mas refletir sobre nossa própria posição diante da cultura que consumimos diariamente.

O que determinado conteúdo desperta em nós?

Favorece reflexão, senso crítico e crescimento humano?

Ou apenas estimula consumo imediato, hiperestimulação sensorial e identificação com modelos cuidadosamente produzidos pela indústria cultural?

Na perspectiva espírita, o progresso moral não consiste em rejeitar a cultura nem em demonizar manifestações artísticas. Consiste em desenvolver discernimento. O próprio Allan Kardec enfatiza que a razão deve acompanhar a fé, convidando-nos ao exame criterioso das ideias antes de sua aceitação.

Respeitar a liberdade do outro é um princípio ético indispensável. Contudo, o respeito não exige renúncia ao pensamento crítico. É possível reconhecer a dignidade das pessoas, valorizar tradições religiosas e, simultaneamente, analisar os mecanismos econômicos e culturais que transformam símbolos, identidades e até experiências espirituais em produtos de consumo.

Em uma sociedade marcada pela lógica do espetáculo, talvez o maior ato de liberdade seja justamente preservar a capacidade de pensar antes de consumir, discernir antes de reproduzir e refletir antes de aderir.


Este artigo apresenta uma reflexão de natureza filosófica, sociológica e psicológica sobre a indústria cultural contemporânea. Não tem por objetivo emitir juízos sobre pessoas, artistas ou tradições religiosas específicas, mas estimular o exercício do pensamento crítico, do respeito às diferenças e do discernimento, valores igualmente caros à investigação filosófica e à perspectiva espírita.

Referências:

  • ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. Seleção de textos de Jorge M. B. de Almeida. 15. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.
  • ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
  • DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972–1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
  • FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. 11. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2020.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 91. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 61. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2021.
  • MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I: O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Boitempo, 2015.