Leonardo José Machado Paixão
Psicanalista, Teólogo, Filósofo, Escritor, Articulista e Graduando em Ciências
Humanas
Presidente do Grupo Espírita
Semeadores da Paz, Campos, RJ
Publicou dois livros de própria
autoria pela Editora Virtual O Consolador (EVOC/PR): Reflexões Doutrinárias (2015)
e Novas Reflexões Doutrinárias (2017) para serem baixados gratuitamente. É
médium psicógrafo (com vários livros publicados, também para serem baixados
gratuitamente), psicofônico (em reuniões de desobsessão e tratamento);
magnetizador e pesquisador, especialmente na área de obsessão/desobsessão.
Beatriz Barreto Coelho dos
Santos
Psicóloga Social, Psicanalista e Pós-Graduada em Psicologia Hospitalar,
Psicanálise Infantil e Neuropsicologia
Tesoureira do Grupo Espírita
Semeadores da Paz, Campos, RJ
Dirigente de Reuniões
Mediúnicas; Oradora; Magnetizadora.
Entre os muitos equívocos que
ainda circulam em ambientes religiosos, inclusive entre espíritas, poucos são
tão graves quanto a afirmação de que uma criança, adolescente ou mulher vítima
de abuso sexual teria passado por essa experiência porque tal violência estava
"programada" em sua reencarnação.
Tal interpretação não apenas
carece de fundamentação doutrinária sólida, como produz aquilo que a psicologia
contemporânea denomina revitimização: o sofrimento original da vítima é
acrescido de uma nova violência, desta vez simbólica e moral, quando lhe é
atribuído algum tipo de responsabilidade espiritual pelo crime que sofreu.
É necessário recordar que a
Doutrina Espírita jamais negou a existência do livre-arbítrio. Ao contrário,
ele constitui um de seus pilares fundamentais. Se afirmássemos que um estupro
foi previamente determinado por Deus ou rigidamente programado no planejamento
reencarnatório, estaríamos esvaziando a responsabilidade moral do agressor.
Nesse caso, o criminoso seria apenas um instrumento de um roteiro previamente estabelecido,
e não um sujeito responsável por suas escolhas.
Tal concepção contradiz
frontalmente o ensino espírita sobre a liberdade humana.
O estupro é um crime. É um ato
de violência praticado por alguém que escolheu violar a dignidade, a
integridade física e a autonomia de outra pessoa. Não há justificativa
doutrinária para transformar um ato criminoso em suposto mecanismo pedagógico
planejado por Deus.
A Justiça Divina não pode ser
confundida com determinismo moral.
Afirmar que toda violência
sofrida por alguém decorre necessariamente de débitos pretéritos é uma
simplificação perigosa, incompatível com a complexidade apresentada pela
própria Codificação Espírita.
Muitas vezes esquecemos que
vivemos em um mundo de provas e expiações precisamente porque nele coexistem
Espíritos em diferentes graus evolutivos, exercendo livremente suas escolhas,
inclusive escolhas criminosas.
Sob a perspectiva
psicanalítica, tal discurso pode ser ainda mais danoso. A vítima de violência
sexual frequentemente já carrega sentimentos de culpa, vergonha e confusão
emocional. Quando líderes religiosos ou trabalhadores espíritas sugerem que
aquela experiência fazia parte de um plano espiritual necessário, acabam
reforçando fantasias inconscientes de culpabilidade e contribuindo para o
agravamento do sofrimento psíquico.
A escuta ética exige
acolhimento, jamais acusação.
Nesse contexto, algumas
questões de O Livro dos Espíritos oferecem elementos importantes para
uma reflexão mais cuidadosa.
Na questão 356, Kardec
pergunta:
"Entre os natimortos
alguns haverá que não tenham sido destinados à encarnação de um Espírito?"
Os Espíritos respondem:
"Alguns há, efetivamente,
a cujos corpos nunca nenhum Espírito esteve destinado. Nada tinha que se
efetuar para eles. Tais crianças então só vêm por seus pais."
Uma interpretação possível
dessa resposta é que nem toda concepção biológica corresponde necessariamente a
um processo reencarnatório já consolidado. O texto sugere que existem casos em
que o desenvolvimento fetal ocorre como decorrência natural dos processos
fisiológicos da reprodução humana sem que tenha havido vinculação definitiva de
um Espírito àquele organismo.
A resposta não autoriza
conclusões simplistas, mas demonstra que a própria Codificação reconhece
situações mais complexas do que aquelas frequentemente apresentadas em
discursos religiosos absolutistas.
A questão 357 complementa essa
reflexão ao perguntar:
"Que consequências tem
para o Espírito o aborto?"
Resposta:
"É uma existência
nulificada e que ele terá de recomeçar."
Observe-se que a resposta não
descreve condenação eterna, nem dano irreparável ao Espírito. Fala-se de uma
experiência encarnatória interrompida que deverá ser retomada em momento
oportuno.
Isso se torna ainda mais
relevante quando analisamos a questão 359:
"Dado o caso que o
nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe dela, haverá crime em
sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?"
Os Espíritos respondem:
"Preferível é se
sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar o que já existe."
A resposta é
extraordinariamente clara.
O critério adotado pela
espiritualidade superior não é absoluto nem dogmático. Entre preservar a vida
de uma mulher que já possui existência consolidada na matéria e manter uma
gestação que ameaça sua sobrevivência, a orientação é preservar aquela cuja
existência corporal já se encontra efetivamente constituída.
A própria resposta indica uma
distinção importante entre a situação existencial da mãe e a daquele Espírito
que ainda não iniciou plenamente sua trajetória terrena.
Isso demonstra que a
Codificação Espírita não sustenta uma visão simplista segundo a qual qualquer
interrupção da gestação deva ser analisada fora das circunstâncias concretas
envolvidas.
A Doutrina Espírita, ao
contrário, convida à ponderação, à caridade e ao discernimento.
É precisamente nesse ponto que
a discussão contemporânea sobre violência sexual, infância e saúde pública
exige maturidade.
Como observa Beatriz Barreto
Coelho dos Santos:
"Eu, como psicóloga,
preciso acolher o sofrimento da mulher que passa por abuso. Se seguirmos
propostas legislativas que eliminem garantias de proteção e atendimento
especializado às crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, corremos
o risco de confundir aquilo que é questão de saúde pública com aquilo que
pertence ao campo das convicções morais ou religiosas. O sofrimento da vítima
deve ser acolhido e tratado, não instrumentalizado para disputas
ideológicas."
A observação é particularmente
relevante porque a atuação profissional na psicologia, na assistência social e
na saúde pública exige reconhecer que o abuso sexual produz consequências
físicas, emocionais e subjetivas profundas.
Acolher não significa
incentivar decisões específicas.
Acolher significa reconhecer a
dor real da vítima, respeitar sua dignidade humana e assegurar que receba
assistência adequada.
Como espíritas, precisamos ter
cuidado para não transformar nossas interpretações pessoais em dogmas.
O Espiritismo não foi
concebido para aumentar o peso das cruzes humanas, mas para oferecer
esclarecimento, consolo e responsabilidade moral.
Quando uma criança é
violentada, o foco ético deve recair sobre o agressor, jamais sobre a vítima.
Quando uma mulher sofre abuso
sexual, a primeira resposta deve ser acolhimento, proteção e cuidado.
Quando discutimos temas tão
delicados, devemos lembrar que Jesus jamais acrescentou sofrimento ao
sofrimento dos que já estavam feridos.
A verdadeira fidelidade ao
Evangelho e à Doutrina Espírita não está em julgar quem sofre, mas em
ampará-lo.
E isso exige que rejeitemos
toda interpretação que transforme a vítima em culpada e o crime em destino.