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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Espiritismo e Racismo: quando a caridade também exige a revisão de nossas ideias

Por Leonardo Paixão 

Durante um estudo recente de O Livro dos Espíritos, refletíamos sobre as diversas tradições espiritualistas, suas concepções acerca da comunicação entre os Espíritos e os encarnados e as diferentes compreensões sobre a reencarnação. Em determinado momento, a conversa naturalmente alcançou as religiões de matriz africana e, junto delas, vieram também alguns preconceitos historicamente reproduzidos em nossa sociedade.

Foi uma oportunidade importante para recordar algo que considero fundamental: desconhecimento não pode ser confundido com conhecimento, tampouco preconceito pode ser travestido de convicção religiosa.

Durante séculos, a cultura africana foi perseguida, silenciada e criminalizada no Brasil. Seus ritos foram proibidos, seus sacerdotes perseguidos, seus símbolos demonizados e sua produção de conhecimento considerada inferior. Esse processo não aconteceu por acaso. Foi parte de um projeto colonial que precisava destruir identidades para justificar a escravidão e a dominação. Não bastava explorar corpos; era preciso desqualificar saberes.

Ainda hoje carregamos muitos desses resquícios. Crescemos ouvindo que aquilo que vem da África é "magia negra", "coisa do mal", enquanto práticas semelhantes, quando realizadas em outras tradições religiosas, recebem nomes diferentes e são vistas com maior respeito. Essa diferença de tratamento não nasce da espiritualidade; nasce da história.

Isso não significa afirmar que todas as práticas religiosas sejam iguais, nem que devamos concordar com tudo o que existe em qualquer tradição. Significa apenas reconhecer que nenhuma religião pode ser julgada a partir dos preconceitos herdados de um olhar eurocêntrico.

O próprio Espiritismo nos convida ao estudo, à observação e ao uso da razão. Allan Kardec jamais recomendou condenar aquilo que não conhecemos. Ao contrário, ensinou que devemos investigar antes de formular juízos. A ignorância não pode ocupar o lugar da pesquisa.

Como espíritas, muitas vezes afirmamos que todos somos Espíritos imortais, criados simples e ignorantes, destinados ao progresso. Se levamos essa ideia às últimas consequências, torna-se impossível sustentar qualquer forma de discriminação baseada na origem, na cor da pele, na cultura ou na tradição religiosa de um povo.

Jesus também não perguntou de onde vinham aqueles que acolhia. Não estabeleceu hierarquias entre povos. Sua medida sempre foi o amor, a misericórdia e a justiça.

Por isso, acredito que não basta dizer que não somos racistas. Essa afirmação, por si só, é insuficiente. O racismo também se manifesta quando repetimos estereótipos sem perceber, quando demonizamos culturas que desconhecemos ou quando naturalizamos discursos herdados de uma longa história de colonização.

Ser antirracista é justamente interromper esse ciclo. É reconhecer nossos condicionamentos históricos, revisar nossas certezas e permitir que o conhecimento substitua o preconceito.

Essa postura não pertence à direita nem à esquerda. Pertence à ética. Defender a dignidade humana não deveria ser um marcador ideológico, mas um compromisso civilizatório. É perfeitamente possível defender a democracia, as liberdades individuais, o Estado de Direito e, ao mesmo tempo, reconhecer que a população negra sofreu — e ainda sofre — profundas desigualdades produzidas historicamente. Reconhecer esse fato não é fazer política partidária; é fazer justiça histórica.

Uma casa espírita que estuda Kardec precisa ser, antes de tudo, uma casa aberta ao diálogo, à pesquisa e à humildade intelectual. Afinal, ninguém progride espiritualmente alimentando preconceitos.

Se há algo que o Espiritismo nos ensina é que a evolução moral começa quando abandonamos nossas vaidades, inclusive a vaidade de acreditar que já sabemos tudo.

Talvez uma das formas mais autênticas de praticar a caridade seja justamente esta: permitir que o outro exista em sua diferença sem que nossa ignorância transforme essa diferença em condenação.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Entre o Axé, o Marketing e o Fetichismo: o que a Indústria Cultural realmente nos vende?

 Por Leonardo Paixão


Recentemente, durante uma conversa com uma amiga, surgiu uma reflexão a partir de um conteúdo publicado por uma influenciadora acerca de um videoclipe da cantora Anitta. O vídeo destacava a presença de elementos do Candomblé — religião da qual a artista é iniciada — como expressão de identidade cultural, representatividade e ruptura de preconceitos.

A discussão, entretanto, despertou em mim um questionamento que ultrapassa o campo religioso. Mais do que analisar uma artista ou uma tradição específica, interessa-me compreender os mecanismos sociais, econômicos e culturais que operam na construção dos fenômenos midiáticos contemporâneos.

A questão, portanto, não é o Candomblé, nem Anitta em si. A questão é a lógica que rege a indústria cultural.

Marketing não é apenas publicidade

Existe uma compreensão bastante difundida de que marketing consiste apenas em propaganda. Na realidade, trata-se de um campo muito mais amplo. Marketing envolve pesquisa, leitura de comportamento, identificação de demandas, segmentação de públicos e posicionamento estratégico.

Em outras palavras, antes de vender um produto, vende-se uma narrativa.

Quando artistas de alcance internacional incorporam elementos culturais, religiosos ou identitários às suas produções, é razoável compreender que tais escolhas dialogam, simultaneamente, com dimensões pessoais, artísticas e mercadológicas. Em um mercado altamente competitivo, a atenção tornou-se um dos ativos mais valiosos da economia contemporânea.

Temas que rompem expectativas, desafiam tabus ou mobilizam intensas reações sociais tendem a produzir elevado engajamento. E, na lógica das plataformas digitais, engajamento converte-se em visibilidade; visibilidade converte-se em capital.

Essa dinâmica não constitui, necessariamente, um juízo moral sobre quem produz a obra. Trata-se, antes, da descrição de um funcionamento próprio do capitalismo contemporâneo.

O fetichismo da mercadoria revisitado

Karl Marx, ao desenvolver o conceito de fetichismo da mercadoria, demonstrou como o capitalismo atribui aos produtos uma aparência quase mágica, ocultando as relações sociais que os produzem.

Na indústria cultural, esse fenômeno parece assumir novas configurações.

O que se comercializa já não é apenas uma música, um álbum ou um espetáculo. Comercializam-se estilos de vida, identidades, discursos, símbolos, experiências e imagens cuidadosamente produzidas.

O corpo deixa de ser apenas corpo para tornar-se linguagem de mercado.

A sexualização, a construção de personagens públicos, a permanente exposição da intimidade e a associação da imagem a determinadas causas podem funcionar como elementos de uma mesma estratégia de circulação simbólica. O consumidor deixa de adquirir apenas um produto artístico; passa a consumir um imaginário.

Os corpos entre liberdade e mercado

Michel Foucault demonstrou que o poder moderno não opera apenas por meio da repressão, mas também pela produção de discursos e pela gestão dos corpos.

Posteriormente, Gilles Deleuze descreveu uma sociedade em que os mecanismos de controle tornam-se mais difusos, penetrando os espaços da comunicação, do consumo e da subjetividade.

À luz dessas reflexões, cabe perguntar: quando determinados padrões de comportamento são apresentados como expressão máxima da liberdade, estamos diante de uma emancipação efetiva ou de novas formas de captura do desejo?

Nem toda escolha individual está dissociada das estruturas econômicas que a condicionam. Muitas vezes, aquilo que se apresenta como espontâneo também responde às expectativas do mercado.

O capitalismo contemporâneo revela extraordinária capacidade de absorver discursos de contestação, transformando-os em mercadorias altamente rentáveis.

Cultura, religião e consumo

Esse raciocínio não pretende diminuir a riqueza das religiões de matriz africana nem negar sua profunda importância histórica, social e espiritual. Ao contrário, reconhece sua contribuição para a formação cultural brasileira e reafirma o respeito que toda tradição religiosa merece.

Entretanto, uma questão permanece pertinente: quando símbolos religiosos passam a integrar produtos culturais destinados ao consumo de massa, em que medida continuam sendo expressão de uma vivência espiritual e em que medida tornam-se componentes de uma estratégia de mercado?

Essa pergunta não possui resposta simples. Justamente por isso merece ser feita.

O que isso agrega à nossa formação?

Do ponto de vista filosófico, psicológico e também espiritual, talvez a questão mais importante não seja discutir artistas específicos, mas refletir sobre nossa própria posição diante da cultura que consumimos diariamente.

O que determinado conteúdo desperta em nós?

Favorece reflexão, senso crítico e crescimento humano?

Ou apenas estimula consumo imediato, hiperestimulação sensorial e identificação com modelos cuidadosamente produzidos pela indústria cultural?

Na perspectiva espírita, o progresso moral não consiste em rejeitar a cultura nem em demonizar manifestações artísticas. Consiste em desenvolver discernimento. O próprio Allan Kardec enfatiza que a razão deve acompanhar a fé, convidando-nos ao exame criterioso das ideias antes de sua aceitação.

Respeitar a liberdade do outro é um princípio ético indispensável. Contudo, o respeito não exige renúncia ao pensamento crítico. É possível reconhecer a dignidade das pessoas, valorizar tradições religiosas e, simultaneamente, analisar os mecanismos econômicos e culturais que transformam símbolos, identidades e até experiências espirituais em produtos de consumo.

Em uma sociedade marcada pela lógica do espetáculo, talvez o maior ato de liberdade seja justamente preservar a capacidade de pensar antes de consumir, discernir antes de reproduzir e refletir antes de aderir.


Este artigo apresenta uma reflexão de natureza filosófica, sociológica e psicológica sobre a indústria cultural contemporânea. Não tem por objetivo emitir juízos sobre pessoas, artistas ou tradições religiosas específicas, mas estimular o exercício do pensamento crítico, do respeito às diferenças e do discernimento, valores igualmente caros à investigação filosófica e à perspectiva espírita.

Referências:

  • ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. Seleção de textos de Jorge M. B. de Almeida. 15. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.
  • ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
  • DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972–1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
  • FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. 11. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2020.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 91. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 61. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2021.
  • MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I: O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Boitempo, 2015.

  • domingo, 26 de julho de 2026

    A Individualidade como Caminho de Consciência: Um Estudo a partir de Os Prazeres da Alma (Hammed)

    Por Leonardo Paixão

    O capítulo dedicado à individualidade, estudado no Episódio 31 da série Os Prazeres da Alma (Espírito Hammed, psicografia de Francisco do Espírito Santo Neto), oferece um terreno fértil para refletirmos sobre a relação entre autoconhecimento, responsabilidade espiritual e transformação social. A proposta deste artigo é analisar, de maneira integrada, como a individualidade pode ser compreendida à luz do Espiritismo, em diálogo com a psicologia profunda de Carl Gustav Jung, e relacionada tanto às questões de gênero quanto aos desafios geopolíticos da atualidade.

    1. A Individualidade como Processo de Despertar

    Hammed nos recorda que individualidade não é isolamento, egoísmo ou distanciamento do mundo. No sentido espiritual, ela representa o movimento pelo qual o ser humano reconhece sua condição essencial de Espírito imortal, dotado de singularidade e propósito.

    Nesse ponto, a reflexão encontra afinidade com a noção junguiana de individuação, compreendida como um processo de integração psíquica que conduz o indivíduo à descoberta de seu “eu” autêntico. Tal processo não se confunde com narcisismo; ao contrário, exige confrontar sombras internas, observar a si mesmo com honestidade e abandonar as máscaras sociais que nos impedem de viver em verdade.

    A auto-observação, tão presente na psicologia analítica e tão recomendada pelos Espíritos superiores, é o alicerce dessa jornada. Somente quando reconhecemos nossas fragilidades, paixões, automatismos e incoerências é que podemos iniciar uma reforma íntima consistente — e essa é exatamente a proposta do capítulo analisado.

    2. Consciência Feminina e a Superação da Opressão

    O estudo também destaca que o despertar da individualidade não é apenas um fenômeno psicológico ou espiritual, mas possui repercussões sociais profundas. Ao abordar a violência contra a mulher, observa-se que milhares de mulheres ao redor do mundo vêm rompendo séculos de silenciamento, submissão e receio, afirmando sua dignidade mediante denúncias, mobilização social e busca de proteção jurídica.

    Esse movimento, longe de ser uma simples tendência social, pode ser interpretado como expressão do despertar da individualidade feminina. Quando a mulher se reconhece como sujeito pleno — e não como objeto ou posse — ela rompe padrões herdados de uma estrutura patriarcal e avança em direção à sua condição espiritual verdadeira: a de Espírito dotado de autonomia e valor intrínseco.

    Do ponto de vista da ética espírita, nenhuma forma de espiritualidade pode compactuar com opressões ou violências. A busca pela consciência de si conduz naturalmente ao respeito pela dignidade humana e ao compromisso com a justiça.

    3. Geopolítica e Transição da Ordem Mundial

    Em uma perspectiva mais ampla, o estudo aborda as tensões geopolíticas contemporâneas, especialmente o conflito entre Estados Unidos e Irã, interpretando-as como sinais de transformação da ordem mundial.

    As disputas de poder, a gradativa perda de hegemonias tradicionais e a ascensão de novos blocos econômicos e estratégicos apontam para a reconfiguração das relações internacionais.

    Essa leitura pode ser compreendida à luz do conceito espírita de transição planetária, no qual a sociedade humana deixa gradualmente estruturas pautadas pela força, pela dominação e pelo interesse particular para aproximar-se de uma convivência mais cooperativa, justa e solidária.

    Não se trata de idealização ingênua. Trata-se de reconhecer que grandes mudanças históricas refletem também movimentos de consciência coletiva — e que, conforme ensinou Kardec, o progresso moral da humanidade ocorre pela soma dos progressos individuais.

    4. O Impacto da Geopolítica na Vida Individual

    Uma das contribuições mais valiosas do estudo é justamente estabelecer a ponte entre a macroestrutura global e a experiência subjetiva de cada indivíduo. A guerra, a instabilidade econômica e as disputas por poder não são fenômenos distantes: influenciam diretamente nossa vida diária, desde o custo de vida até a sensação de segurança e bem-estar.

    A relação é recíproca. Se líderes que decidem os rumos das nações são, em sua maioria, indivíduos ainda imaturos espiritualmente, é natural que suas escolhas reproduzam conflitos, ambições e desequilíbrios internos. Por outro lado, quando indivíduos trabalham sua paz interior, tornam-se pequenas fontes de equilíbrio que contribuem para a formação de uma massa crítica de consciência, necessária para transformar as relações sociais e políticas.

    Assim, autoconhecimento e responsabilidade ética deixam de ser apenas tarefas pessoais e assumem dimensão coletiva.

    Conclusão

    O estudo do capítulo "Individualidade – 2ª parte" revela que o Espiritismo, longe de restringir-se a uma vivência intimista, convida-nos a compreender a vida humana em suas diversas camadas: psicológica, espiritual, social e planetária.

    A individualidade, compreendida espiritualmente, é o caminho pelo qual o Espírito se reconhece como sujeito de sua própria história, liberta-se das expectativas externas e assume responsabilidade por sua luz e pelo bem que pode realizar no mundo.

    Ao dialogar com Jung, ao refletir sobre a emancipação feminina e ao considerar os desafios geopolíticos atuais, o estudo mostra que espiritualidade madura não ignora o mundo — ao contrário, busca compreendê-lo e transformá-lo a partir de dentro.

    A construção de uma humanidade mais justa, pacífica e consciente começa, inevitavelmente, com a construção de indivíduos mais lúcidos, responsáveis e comprometidos com a verdade interior.


    Referências:

    - Hammed (Espírito). Os Prazeres da Alma. Pelo Espírito Hammed; [psicografado por] Francisco do Espírito Santo Neto. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2003. p. 141


    - https://youtu.be/szPX1FprkFE?is=tSUTfyWU4L6T4KEz

    domingo, 21 de junho de 2026

    O Atendimento Fraterno e a Escuta de Casos Complexos: Algumas Reflexões

    Por Leonardo José Machado Paixão

    20/06/2026

    Campos dos Goytacazes, RJ

    Em muitas ocasiões, chegam às Casas Espíritas pessoas trazendo intenso sofrimento emocional, conflitos familiares, experiências religiosas diversas, sintomas psicológicos importantes e, por vezes, relatos de percepções espirituais ou mediúnicas. Diante desses casos, é fundamental que os trabalhadores da equipe de atendimento fraterno e da reunião de desobsessão mantenham uma postura de prudência, acolhimento e discernimento.

    Nem todo sofrimento emocional decorre de obsessão espiritual. Da mesma forma, a presença de mediunidade não exclui a existência de questões psicológicas, psiquiátricas ou relacionais que necessitam de acompanhamento adequado. A Doutrina Espírita jamais ensinou que a dimensão espiritual substitui a responsabilidade pelos cuidados com a saúde física e mental.

    Quando recebemos alguém em atendimento fraterno, nossa primeira tarefa não é diagnosticar espíritos, obsessores ou influências espirituais. Nossa primeira tarefa é escutar.

    Escutar sem julgamento.

    Escutar sem precipitação.

    Escutar sem a necessidade de oferecer respostas imediatas para tudo.

    Muitas pessoas chegam fragilizadas por histórias de abandono, rejeição, violência, abuso, discriminação ou sofrimento psíquico. Nesses momentos, o trabalhador espírita deve recordar que o acolhimento sincero muitas vezes é mais terapêutico do que qualquer interpretação apressada.

    Particularmente nos casos em que surgem relatos de ansiedade, depressão, automutilação, impulsividade, ideação autodestrutiva ou dificuldades emocionais intensas, é indispensável que a Casa Espírita respeite e incentive o acompanhamento médico, psicológico e psiquiátrico quando necessário. O atendimento espiritual complementa esses recursos; não os substitui.

    Outro cuidado importante diz respeito às percepções mediúnicas dos trabalhadores da equipe. Mesmo quando diferentes médiuns relatam percepções semelhantes sobre determinada pessoa, tais percepções não devem ser apresentadas como verdades absolutas ou sentenças definitivas. A mediunidade é instrumento de auxílio e esclarecimento, jamais de imposição.

    Nenhum espírito, guia, entidade ou mentor retira do indivíduo sua liberdade de consciência, sua responsabilidade moral ou seu direito de escolha. O papel da equipe espiritual é orientar, jamais determinar o destino de alguém.

    Quando uma pessoa é informada de que possui determinada influência espiritual ou potencial mediúnico, essa informação deve ser transmitida com extremo cuidado, sem gerar medo, dependência psicológica ou sensação de obrigação. A liberdade permanece sendo um princípio fundamental da Lei Divina.

    Por isso, os trabalhadores da Casa Espírita devem evitar interpretações simplistas que reduzam todo sofrimento humano à ação de espíritos desencarnados. As experiências espirituais existem e merecem consideração séria; contudo, também existem feridas emocionais, traumas, conflitos familiares, mecanismos psíquicos e processos subjetivos que fazem parte da própria condição humana.

    A boa prática espírita exige equilíbrio.

    Nem materialismo que negue a dimensão espiritual.

    Nem misticismo que atribua tudo aos espíritos.

    Entre esses extremos encontra-se o caminho do discernimento, da caridade e da responsabilidade.

    A verdadeira ajuda espiritual não consiste em convencer alguém de determinada interpretação. Consiste em auxiliá-lo a encontrar recursos para viver com mais consciência, mais equilíbrio e mais liberdade.

    A escuta fraterna, quando exercida com humildade, respeito e amor, continua sendo uma das mais belas formas de caridade que a Casa Espírita pode oferecer.

    domingo, 14 de junho de 2026

    Violência Sexual, Livre-arbítrio e Responsabilidade Moral: Uma reflexão espírita sobre a revitimização das vítimas


    Leonardo José Machado Paixão


    Psicanalista, Teólogo, Filósofo, Escritor, Articulista e Graduando em Ciências Humanas

    Presidente do Grupo Espírita Semeadores da Paz, Campos, RJ

    Publicou dois livros de própria autoria pela Editora Virtual O Consolador (EVOC/PR): Reflexões Doutrinárias (2015) e Novas Reflexões Doutrinárias (2017) para serem baixados gratuitamente. É médium psicógrafo (com vários livros publicados, também para serem baixados gratuitamente), psicofônico (em reuniões de desobsessão e tratamento); magnetizador e pesquisador, especialmente na área de obsessão/desobsessão.

     

    Beatriz Barreto Coelho dos Santos


    Psicóloga Social, Psicanalista e Pós-Graduada em Psicologia Hospitalar, Psicanálise Infantil e Neuropsicologia

    Tesoureira do Grupo Espírita Semeadores da Paz, Campos, RJ

    Dirigente de Reuniões Mediúnicas; Oradora; Magnetizadora.

     

    Entre os muitos equívocos que ainda circulam em ambientes religiosos, inclusive entre espíritas, poucos são tão graves quanto a afirmação de que uma criança, adolescente ou mulher vítima de abuso sexual teria passado por essa experiência porque tal violência estava "programada" em sua reencarnação.

    Tal interpretação não apenas carece de fundamentação doutrinária sólida, como produz aquilo que a psicologia contemporânea denomina revitimização: o sofrimento original da vítima é acrescido de uma nova violência, desta vez simbólica e moral, quando lhe é atribuído algum tipo de responsabilidade espiritual pelo crime que sofreu.

    É necessário recordar que a Doutrina Espírita jamais negou a existência do livre-arbítrio. Ao contrário, ele constitui um de seus pilares fundamentais. Se afirmássemos que um estupro foi previamente determinado por Deus ou rigidamente programado no planejamento reencarnatório, estaríamos esvaziando a responsabilidade moral do agressor. Nesse caso, o criminoso seria apenas um instrumento de um roteiro previamente estabelecido, e não um sujeito responsável por suas escolhas.

    Tal concepção contradiz frontalmente o ensino espírita sobre a liberdade humana.

    O estupro é um crime. É um ato de violência praticado por alguém que escolheu violar a dignidade, a integridade física e a autonomia de outra pessoa. Não há justificativa doutrinária para transformar um ato criminoso em suposto mecanismo pedagógico planejado por Deus.

    A Justiça Divina não pode ser confundida com determinismo moral.

    Afirmar que toda violência sofrida por alguém decorre necessariamente de débitos pretéritos é uma simplificação perigosa, incompatível com a complexidade apresentada pela própria Codificação Espírita.

    Muitas vezes esquecemos que vivemos em um mundo de provas e expiações precisamente porque nele coexistem Espíritos em diferentes graus evolutivos, exercendo livremente suas escolhas, inclusive escolhas criminosas.

    Sob a perspectiva psicanalítica, tal discurso pode ser ainda mais danoso. A vítima de violência sexual frequentemente já carrega sentimentos de culpa, vergonha e confusão emocional. Quando líderes religiosos ou trabalhadores espíritas sugerem que aquela experiência fazia parte de um plano espiritual necessário, acabam reforçando fantasias inconscientes de culpabilidade e contribuindo para o agravamento do sofrimento psíquico.

    A escuta ética exige acolhimento, jamais acusação.

    Nesse contexto, algumas questões de O Livro dos Espíritos oferecem elementos importantes para uma reflexão mais cuidadosa.

    Na questão 356, Kardec pergunta:

    "Entre os natimortos alguns haverá que não tenham sido destinados à encarnação de um Espírito?"

    Os Espíritos respondem:

    "Alguns há, efetivamente, a cujos corpos nunca nenhum Espírito esteve destinado. Nada tinha que se efetuar para eles. Tais crianças então só vêm por seus pais."

    Uma interpretação possível dessa resposta é que nem toda concepção biológica corresponde necessariamente a um processo reencarnatório já consolidado. O texto sugere que existem casos em que o desenvolvimento fetal ocorre como decorrência natural dos processos fisiológicos da reprodução humana sem que tenha havido vinculação definitiva de um Espírito àquele organismo.

    A resposta não autoriza conclusões simplistas, mas demonstra que a própria Codificação reconhece situações mais complexas do que aquelas frequentemente apresentadas em discursos religiosos absolutistas.

    A questão 357 complementa essa reflexão ao perguntar:

    "Que consequências tem para o Espírito o aborto?"

    Resposta:

    "É uma existência nulificada e que ele terá de recomeçar."

    Observe-se que a resposta não descreve condenação eterna, nem dano irreparável ao Espírito. Fala-se de uma experiência encarnatória interrompida que deverá ser retomada em momento oportuno.

    Isso se torna ainda mais relevante quando analisamos a questão 359:

    "Dado o caso que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?"

    Os Espíritos respondem:

    "Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar o que já existe."

    A resposta é extraordinariamente clara.

    O critério adotado pela espiritualidade superior não é absoluto nem dogmático. Entre preservar a vida de uma mulher que já possui existência consolidada na matéria e manter uma gestação que ameaça sua sobrevivência, a orientação é preservar aquela cuja existência corporal já se encontra efetivamente constituída.

    A própria resposta indica uma distinção importante entre a situação existencial da mãe e a daquele Espírito que ainda não iniciou plenamente sua trajetória terrena.

    Isso demonstra que a Codificação Espírita não sustenta uma visão simplista segundo a qual qualquer interrupção da gestação deva ser analisada fora das circunstâncias concretas envolvidas.

    A Doutrina Espírita, ao contrário, convida à ponderação, à caridade e ao discernimento.

    É precisamente nesse ponto que a discussão contemporânea sobre violência sexual, infância e saúde pública exige maturidade.

    Como observa Beatriz Barreto Coelho dos Santos:

    "Eu, como psicóloga, preciso acolher o sofrimento da mulher que passa por abuso. Se seguirmos propostas legislativas que eliminem garantias de proteção e atendimento especializado às crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, corremos o risco de confundir aquilo que é questão de saúde pública com aquilo que pertence ao campo das convicções morais ou religiosas. O sofrimento da vítima deve ser acolhido e tratado, não instrumentalizado para disputas ideológicas."

    A observação é particularmente relevante porque a atuação profissional na psicologia, na assistência social e na saúde pública exige reconhecer que o abuso sexual produz consequências físicas, emocionais e subjetivas profundas.

    Acolher não significa incentivar decisões específicas.

    Acolher significa reconhecer a dor real da vítima, respeitar sua dignidade humana e assegurar que receba assistência adequada.

    Como espíritas, precisamos ter cuidado para não transformar nossas interpretações pessoais em dogmas.

    O Espiritismo não foi concebido para aumentar o peso das cruzes humanas, mas para oferecer esclarecimento, consolo e responsabilidade moral.

    Quando uma criança é violentada, o foco ético deve recair sobre o agressor, jamais sobre a vítima.

    Quando uma mulher sofre abuso sexual, a primeira resposta deve ser acolhimento, proteção e cuidado.

    Quando discutimos temas tão delicados, devemos lembrar que Jesus jamais acrescentou sofrimento ao sofrimento dos que já estavam feridos.

    A verdadeira fidelidade ao Evangelho e à Doutrina Espírita não está em julgar quem sofre, mas em ampará-lo.

    E isso exige que rejeitemos toda interpretação que transforme a vítima em culpada e o crime em destino.

     

    quarta-feira, 13 de agosto de 2025

    O Fenômeno Obsessivo à Luz do Espiritismo: Análise do Capítulo III de A Loucura sob Novo Prisma, de Bezerra de Menezes

    Por Leonardo Paixão 

    Resumo

    O presente artigo examina o capítulo “Obsessão” da obra A Loucura sob Novo Prisma (1897), de Adolfo Bezerra de Menezes, à luz de uma perspectiva integrativa entre ciência e espiritualidade. Publicada no final do século XIX, a obra apresenta uma visão inovadora para a época ao compreender determinados quadros de sofrimento psíquico como resultantes da influência persistente de espíritos desencarnados sobre encarnados, em sintonia com os princípios codificados por Allan Kardec. Partindo de sua formação médica e de seu compromisso espírita, Bezerra propõe que a etiologia da “loucura” pode incluir fatores espirituais, fluidos e morais, demandando, portanto, uma terapêutica que una diagnóstico clínico rigoroso, renovação moral e tratamento moral do paciente e do obsessor. A análise ressalta a relevância dessa abordagem frente aos desafios da psiquiatria contemporânea, que, apesar dos avanços neurocientíficos, ainda encontra limites na explicação e no tratamento de transtornos mentais complexos.

    Palavras-chave: Obsessão espiritual; Espiritismo; Bezerra de Menezes; Saúde mental integral; Transtornos mentais; Terapia espírita.


    1. Introdução: um olhar além do cérebro


    No final do século XIX, a medicina mental encontrava-se em pleno processo de consolidação, mas ainda carecia de instrumentos diagnósticos e terapêuticos eficazes. Internações prolongadas, contenções físicas e métodos invasivos eram práticas comuns, muitas vezes incapazes de restaurar a saúde do paciente. Nesse cenário, Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900) — médico respeitado, político atuante e figura proeminente do Espiritismo brasileiro — lança A Loucura sob Novo Prisma (1897), propondo uma interpretação ampliada para a origem e o tratamento das doenças mentais.

    O Capítulo III, dedicado à obsessão, rompe com a visão exclusivamente organicista da época ao incluir, no campo etiológico, a influência espiritual de desencarnados sobre encarnados. Baseado nos postulados kardecistas, Bezerra descreve a obsessão como processo de dominação moral e psíquica que se estabelece por afinidade vibratória e pela ação fluídica sobre o perispírito, afetando o corpo e a mente. Ao reconhecer a dimensão espiritual do ser humano, o autor não rejeita a medicina, mas defende uma terapêutica integral que combine cuidados físicos, reforma moral e recursos espirituais, antecipando, em mais de um século, a atual perspectiva biopsicossocial — com a diferença fundamental de incluir, de forma explícita, o componente espiritual.


    2. A Obsessão: conceituação espírita-científica


    Bezerra de Menezes fundamenta sua análise nos postulados da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, particularmente em O Livro dos Médiuns e O Evangelho Segundo o Espiritismo. Ele define a obsessão não como possessão demoníaca, mas como um processo de dominação moral e psíquica exercido por um espírito desencarnado sobre um encarnado. Esta dominação se estabelece através de uma sintonia vibratória negativa, facilitada por:

    - Vícios morais do obsedado: O orgulho, o egoísmo, o ódio, a mágoa, a revolta, a avareza e os vícios materiais (especialmente a dependência química em álcool, destacado por Bezerra, o que podemos ampliar para a dependência química em álcool e outras drogas) criam uma “brecha” psíquica, atraindo espíritos afins e enfraquecendo as defesas perispirituais (KARDEC, 1861; 1864).

    - Fluidos e perispírito: Bezerra, como Kardec, explica a mecânica da obsessão através da ação dos fluidos espirituais. O espírito obsessor, utilizando seu próprio perispírito (corpo semimaterial), envolve ou se liga ao perispírito do encarnado, influenciando diretamente seu sistema nervoso e, consequentemente, seus pensamentos, emoções e comportamento. Essa ação fluídica pode alterar o funcionamento cerebral, simulando ou agravando patologias orgânicas.

    - Graus de obsessão: O autor diferencia a obsessão simples (influência persistente e incômoda, sem perda da autonomia), a fascinação (ilusão e cegueira moral induzidas pelo obsessor, onde a vítima defende seu algoz) e a subjugação (domínio quase completo da vontade e das ações, podendo levar a atos insanos e violentos). Este último grau frequentemente se confundia clinicamente com a loucura patológica.


    3. A obsessão como etiologia da “loucura”


    O cerne da contribuição de Bezerra no capítulo reside em identificar a obsessão como causa real de muitos casos diagnosticados como loucura incurável ou de origem desconhecida pela medicina de seu tempo (e, em parte, ainda hoje). Ele argumenta que: A ação fluídica constante do obsessor sobre o perispírito e, por reverberação, sobre o cérebro físico, pode produzir sintomas idênticos aos de psicoses, neuroses graves, depressões profundas, epilepsias, histerias e comportamentos violentos ou anti-sociais.

    Muitos tratamentos convencionais falhavam porque atacavam apenas o efeito (a disfunção cerebral ou comportamental), ignorando a causa espiritual subjacente — a influência perniciosa do espírito obsessor e a vulnerabilidade moral do paciente.

    A obsessão explica casos de resistência ao tratamento, recaídas inexplicáveis e mudanças súbitas de personalidade ou comportamento, especialmente quando associadas a eventos traumáticos ou a ambientes marcados por fortes conflitos morais.


    4. Diagnóstico diferencial e terapêutica integral


    Bezerra de Menezes não despreza a medicina. Pelo contrário, enfatiza a necessidade do diagnóstico diferencial: o médico deve primeiro esgotar todas as possibilidades de causas orgânicas (lesões cerebrais, infecções, intoxicações, etc.). Somente quando estas são descartadas ou se mostram insuficientes para explicar o quadro, deve-se considerar seriamente a hipótese obsessiva, analisando o histórico moral do paciente, seu ambiente e a natureza específica dos sintomas.

    A proposta terapêutica apresentada é integral e multidimensional:


    - Tratamento médico: indispensável para cuidar do corpo físico e do sistema nervoso debilitado.

    - Tratamento moral/espiritual: o núcleo da cura, incluindo:


    - Renovação moral: esforço consciente para superar vícios, cultivar virtudes (humildade, perdão, caridade, amor), modificar pensamentos e atitudes, fechando as portas à sintonia com o obsessor.

    - Ação sobre o obsessor: por meio de prece, diálogo fraterno mediúnico (em ambientes sérios e doutrinados) e irradiação de fluidos salutares, esclarecendo o espírito perturbador e promovendo sua reconciliação moral.

    - Ambiente saudável: manutenção de um lar e círculos sociais pacíficos e moralmente equilibrados.

    - Recursos fluídicos: passes magnéticos e água magnetizada para reequilibrar o perispírito e restaurar as defesas naturais.


    5. Atualidade e relevância da obra


    Mais de um século após sua publicação, o capítulo sobre obsessão conserva impressionante atualidade:

    - Limitações da psiquiatria contemporânea: apesar dos avanços neuroquímicos e farmacológicos, a etiologia de muitos transtornos mentais graves permanece obscura, e os tratamentos frequentemente não produzem cura definitiva.

    - Visão integral do ser humano: a abordagem de Bezerra antecipa a visão biopsicossocial moderna, acrescentando a dimensão espiritual como fator essencial.

    - Terapêutica holística: a ênfase na reforma íntima, no ambiente saudável e no tratamento moral ressoa com abordagens contemporâneas que valorizam mudanças de estilo de vida e suporte psicossocial.

    - Compreensão das relações humanas: o conceito de sintonia vibratória explica padrões relacionais destrutivos e dinâmicas repetitivas de sofrimento, com possível origem espiritual.


    6. Considerações finais


    O Capítulo III de A Loucura sob Novo Prisma representa uma contribuição pioneira e corajosa para o entendimento das doenças mentais. Bezerra de Menezes, com sua dupla autoridade de médico e espírita, propõe um modelo etiológico e terapêutico que integra ciência e espiritualidade de forma racional. Ao identificar a obsessão espiritual como causa relevante de transtornos psíquicos, desafia o reducionismo materialista e oferece um caminho de cura pela autotransformação moral e ação fraterna — tanto para o obsediado quanto para o obsessor.


    7. Referências


    BEZERRA DE MENEZES, Adolfo. A Loucura sob Novo Prisma. 14. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 91. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 61. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2021.

    KARDEC, Allan. Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, ano 1864. São Paulo: Edicel.

    PUGLIESI, Adilton. A Obsessão: Instalação e Cura.  6. ed. Salvador, BA: Livraria Espírita Alvorada Editora, 2004.


    segunda-feira, 28 de julho de 2025

    O Espírito em suas relações: A Loucura sob a Luz da Imortalidade

    Por Leonardo Paixão


    Resumo

    O presente artigo analisa o capítulo II – “Do Espírito em suas relações” – da obra A Loucura sob Novo Prisma, de Adolfo Bezerra de Menezes, à luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec. Buscamos demonstrar a importância da concepção espiritual do ser humano no entendimento das enfermidades mentais, rompendo com o paradigma exclusivamente materialista. A proposta de Bezerra de Menezes inaugura uma verdadeira revolução epistemológica ao inserir o Espírito como agente ativo na gênese e na terapêutica da loucura.


    Introdução


    A medicina do século XIX, ainda fortemente influenciada pelo materialismo científico, via a loucura como uma disfunção puramente orgânica, restrita ao sistema nervoso. Surge então, em 1898, a obra A Loucura sob Novo Prisma, em que o médico e espírita Adolfo Bezerra de Menezes apresenta uma leitura inovadora: a de que, por trás das perturbações mentais, há uma alma imortal em sofrimento. No capítulo II, intitulado “Do Espírito em suas relações”, ele delineia as formas como o Espírito interage com o mundo e consigo mesmo, trazendo à luz a dimensão ética, psíquica e espiritual das doenças mentais.


    O Espírito como Ser Relacional


    Bezerra de Menezes parte do princípio fundamental da Doutrina Espírita: o Espírito é o ser inteligente da criação, pré-existente ao corpo e sobrevivente à morte física. Ao tratar das “relações do Espírito”, o autor nos convida a enxergar o ser humano como um ente em constante interação com outras almas, encarnadas ou desencarnadas, e com o ambiente moral e fluídico que o cerca. Essa visão relacional rompe com o reducionismo neurológico e afirma que a sanidade – ou a loucura – está intrinsecamente ligada ao modo como o Espírito se posiciona frente à vida, ao outro e a si mesmo.

    A loucura, para Bezerra, não é apenas um distúrbio do cérebro, mas um conflito da alma. Ela pode ser gerada por processos obsessivos, por desequilíbrios morais, por frustrações do desejo, por culpa inconsciente ou por traumas que não encontraram elaboração psíquica. A mente não é um produto do cérebro, mas sua expressão no campo material. O Espírito é, pois, o centro organizador da experiência mental.


    Influências Espirituais e Interações Invisíveis


    Uma das contribuições mais ousadas de Bezerra está na descrição das influências espirituais que agem sobre o encarnado. Ele afirma que as relações espirituais se dão em dois planos: o visível e o invisível. Espíritos afins, simpáticos ou antipáticos, se ligam a nós por laços vibratórios, potencializando tendências, ampliando conflitos ou inspirando renovação.

    Essas influências, segundo a codificação kardequiana (cf. O Livro dos Médiuns, cap. XXIII), não são exceção, mas regra da vida humana. Todos estamos em constante intercâmbio com o mundo espiritual. Quando esse intercâmbio se dá de forma desequilibrada, em sintonia com entidades perturbadas ou vingativas, pode resultar em estados que a psiquiatria rotula como psicose, mania ou esquizofrenia. Bezerra, porém, propõe um olhar ampliado: nesses casos, a terapêutica precisa envolver não só o corpo, mas o Espírito, através da prece, do passe, da  transformação moral e da caridade.


    A Loucura como Desarmonia do Espírito


    O capítulo em questão destaca que a loucura é muitas vezes uma “desarmonia da alma” que se reflete no corpo perispiritual e, por consequência, no cérebro físico. Essa desarmonia pode ter origem em existências anteriores, como também pode ser fruto de más escolhas na atual encarnação. O Espírito, ao romper com as leis divinas que regem o bem viver, experimenta uma cisão interna que, não raro, se manifesta como sofrimento psíquico.

    Bezerra antecipa, de certo modo, conceitos que viriam a ser retomados pela psicologia profunda (Psicanálise,  de Freud; Psicologia Analítica, de Carl Gustav Jung), como o inconsciente e a repressão. No entanto, sua leitura é espiritual: o inconsciente é também um acervo de experiências vividas em outras encarnações, onde culpas, dores e desejos frustrados se acumulam e podem explodir na forma de doenças mentais. O Espírito não é um mero espectador de sua loucura, mas partícipe ativo de seu drama existencial.


    Terapêutica Espírita: Cuidar do Espírito para Curar a Mente


    Ao compreender a loucura como um fenômeno espiritual, Bezerra propõe também um novo paradigma terapêutico. Não basta medicar o cérebro: é preciso iluminar a alma. A terapêutica espírita, nesse sentido, inclui a evangelização, a assistência espiritual, o passe magnético, a água magnetizada, mas sobretudo a escuta fraterna e o acolhimento amoroso.

    Esse cuidado integral do ser humano dialoga com as propostas mais avançadas da medicina integrativa atual, mas vai além: reconhece a reencarnação como chave para a compreensão do sofrimento e vê na Lei de Causa e Efeito não um castigo, mas uma oportunidade de aprendizado e regeneração.


    Considerações Finais


    Bezerra de Menezes, no capítulo “Do Espírito em suas relações”, nos oferece um mapa para o entendimento profundo da loucura e da saúde mental, onde o Espírito é o protagonista de sua jornada. Seu pensamento permanece atual e necessário, em um mundo onde o sofrimento psíquico cresce e a medicalização ainda predomina.

    Ao trazermos essa reflexão ao movimento espírita, ampliamos nossa responsabilidade na escuta e acolhimento dos que padecem. A caridade, ensina o Cristo, não é apenas dar o pão, mas oferecer o olhar que reconhece a alma no outro. E isso é, talvez, o primeiro passo para toda cura.


    Referências

    BEZERRA DE MENEZES, Adolfo. A Loucura sob Novo Prisma. 14. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 91. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 61. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2021.

    XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade, pelo Espírito André Luiz. 35. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2014.

    FRANCO, Divaldo Pereira. Transtornos Psiquiátricos e Obsessivos, pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2017.

    terça-feira, 22 de julho de 2025

    Existe no Homem um Princípio Espiritual?: Uma Reflexão à Luz da Obra A Loucura sob Novo Prisma, de Bezerra de Menezes

    Por Leonardo Paixão


    Introdução

    A questão acerca da existência de um princípio espiritual no ser humano perpassa toda a história do pensamento ocidental. Entre o logos filosófico grego, as tradições religiosas e os avanços da ciência moderna, essa indagação se revela central para compreender a natureza humana, suas enfermidades e seu destino. Em A Loucura sob Novo Prisma, Adolfo Bezerra de Menezes oferece uma leitura ousada e profunda, que propõe uma reinterpretação da loucura sob a ótica espírita, ao mesmo tempo em que denuncia os limites do reducionismo materialista na medicina mental.


    Neste artigo, com base no Capítulo I da obra, analisamos os fundamentos espirituais da consciência humana, explorando dimensões ontológicas, clínicas e doutrinárias do ser, à luz do pensamento espírita e da filosofia da mente.


    I. A Ontologia do Espírito: Entre a Filosofia e a Revelação


    A pergunta “existe no homem um princípio espiritual?” é, antes de tudo, uma indagação ontológica. O que é o ser humano em sua essência? Para os antigos filósofos gregos, como Platão, o corpo era apenas uma prisão temporária da alma, cuja origem transcendia o mundo sensível. Aristóteles, embora mais imanentista, reconhecia uma alma como princípio de vida e intelecção.

    No pensamento moderno, René Descartes divide substancialmente o ser em duas naturezas: a res extensa (corpo) e a res cogitans (mente ou alma). A subjetividade consciente é, assim, irredutível à matéria. Ainda que tal dualismo cartesiano tenha sido criticado ao longo do tempo, a experiência direta do pensamento e da consciência aponta para algo que não se reduz à estrutura cerebral.

    O Espiritismo, por sua vez, sintetiza essas tradições ao afirmar que o espírito é o princípio inteligente do ser humano, anterior e superior ao corpo físico. 

    Bezerra de Menezes apoia-se nessa concepção ao afirmar que a inteligência humana não pode emergir espontaneamente da matéria. O espírito é a sede da razão, da moral e da identidade pessoal.


    II. Ciência, Espiritualismo e Evidências Empíricas


    Ao apresentar sua tese, Bezerra dialoga com importantes pesquisadores espiritualistas do século XIX. William Crookes, respeitado físico britânico, conduziu experimentos com médiuns sob rigorosas condições, concluindo que a inteligência manifestada nos fenômenos era de origem extrafísica. Cesare Lombroso, inicialmente cético, rendeu-se às evidências após observar manifestações mediúnicas com a médium Eusápia Paladino.

    Esses relatos — longe de serem apenas anedóticos — foram documentados em periódicos científicos e constituíram um movimento real de interseção entre ciência e espiritualidade. Embora a ciência atual muitas vezes descarte tais experiências por não se adequarem aos seus paradigmas naturalistas, elas continuam a ser uma provocação epistemológica diante da complexidade da consciência.

    O Espiritismo não nega a ciência, mas a amplia. Como observa Kardec, "o espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos e de suas relações com o mundo corporal".


    III. Loucura, Psiquiatria e o Reducionismo Materialista


    Bezerra denuncia o erro metodológico de confundir o cérebro com a mente. Embora o cérebro seja o órgão de manifestação da consciência, ele não a produz. Quando os médicos da época diagnosticavam a loucura exclusivamente como lesão cerebral, desconsideravam a possibilidade de que distúrbios psíquicos pudessem ter origem espiritual, moral ou mesmo obsessiva.

    Essa crítica permanece atual. A psiquiatria contemporânea, em muitos casos, continua a tratar os transtornos mentais com base quase exclusiva em fármacos e modelos neuroquímicos, ignorando a subjetividade do paciente e sua dimensão espiritual. Isso gera, muitas vezes, um tratamento sintomático e não transformador.

    A loucura, segundo Bezerra, pode advir tanto de lesões orgânicas quanto de causas espirituais. Ele distingue entre loucura por perturbação cerebral e loucura moral — esta última relacionada a paixões desenfreadas, desequilíbrios do caráter e, sobretudo, influências espirituais obsessivas.


    IV. A Obsessão como Etiologia Espiritual do Sofrimento Psíquico


    No contexto espírita, a obsessão é uma das causas principais de perturbações mentais. Trata-se da influência persistente de um espírito desencarnado sobre um encarnado, podendo gerar desde ideias fixas até desorganizações mais graves da consciência. Kardec define obsessão como:


    "O domínio que alguns Espíritos podem adquirir sobre certas pessoas. Jamais se dá sem o concurso da vontade, seja por fraqueza moral, seja por desejo do mal." (O Livro dos Médiuns, cap. XXIII - Da Obsessão)


    Bezerra compreende que muitos pacientes considerados "loucos" pela medicina materialista, na verdade, estão sob ação obsessiva. Essa influência não se trata de alucinação endógena, mas de um intercâmbio real e patológico entre o desencarnado e o encarnado, estabelecido por sintonia fluídica e moral.


    V. Perispírito e Terapêutica Integral


    O perispírito — corpo semimaterial que liga o espírito ao corpo físico — desempenha papel central nesse processo. As lesões e impressões perispirituais podem repercutir no corpo físico ou gerar distúrbios funcionais sem causa anatômica visível. Por isso, tratar o corpo sem tratar o espírito e seu envoltório intermediário é tratar apenas metade da doença.

    Bezerra defende uma terapêutica integral, que inclui:

    - Preces e passes magnéticos;

    - Transformação moral e evangelização;

    - Desobsessão;

    - Acompanhamento médico, quando necessário;

    - Apoio fraterno e escuta compassiva.


    Esse modelo biopsicoespiritual é o que se poderia chamar de uma medicina da alma, capaz de restaurar não apenas o equilíbrio neuroquímico, mas o sentido da existência.


    Conclusão


    A existência de um princípio espiritual no homem não é apenas uma crença religiosa: é uma hipótese ontológica, filosófica e clínica com grande poder explicativo. Negar o espírito é amputar a complexidade humana, reduzindo a consciência a um epifenômeno material. Bezerra de Menezes, com lucidez e coragem, nos mostra que é possível articular ciência e espiritualidade sem dogmatismos.


    Ao resgatar a dimensão espiritual do ser humano, especialmente no campo da saúde mental, abrimos caminho para um cuidado mais profundo, humano e libertador. Que essa visão mais ampla do homem — corpo, mente e espírito — inspire não apenas médicos, mas todos aqueles comprometidos com o bem-estar integral do ser.


    Referências


    BEZERRA DE MENEZES, Adolfo. A Loucura sob Novo Prisma. 14. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.


    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 91. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008


    KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.


    DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. Ed. Martins Fontes, 2016.


    LOMBROSO, Cesare. Hipnotismo e Espiritismo. Ed. Lake, 1999.


    CROOKES, William. Fatos Espíritas. Ed. Lake, 1990.


    FREIRE, Gabriel Delanne. O Espiritismo Perante a Ciência. Rio de Janeito Editora do Conhecimento, 2009.


    MOREIRA-ALMEIDA, Alexander. Ciência e Espiritualidade. Ed. FEAL.


    terça-feira, 15 de julho de 2025

    A Loucura sob Novo Prisma: A Introdução da Psicopatologia Espírita em Bezerra de Menezes

    Por Leonardo Paixão

    Observação: a partir de hoje, Deixaremos aqui artigo semanal que estuda a série de vídeos que fizemos e continuaremos a fazer sobre o livro A Loucura sob Novo Prisma, de Adolfo Bezerra de Menezes 


    Resumo:

    O presente artigo busca destacar os pontos principais da introdução da obra A Loucura sob Novo Prisma, de Adolfo Bezerra de Menezes, a partir de análise interpretativa de vídeo doutrinário. A obra representa um marco na abordagem espírita da loucura, propondo uma explicação que ultrapassa os limites do cérebro e alcança o espírito. A dualidade corpo-espírito, a distinção entre loucura orgânica e obsessiva, bem como a proposta de terapêutica espiritual, são os eixos centrais analisados.


    Introdução

    O médico, político e expoente do Espiritismo no Brasil, Adolfo Bezerra de Menezes, legou à posteridade uma das obras mais importantes sobre a saúde mental à luz da Doutrina Espírita: A Loucura sob Novo Prisma. Trata-se de um estudo que propõe uma ampliação de horizontes na compreensão dos chamados distúrbios mentais, sugerindo que, ao lado das causas orgânicas, há causas espirituais ignoradas pela medicina materialista.

    Neste artigo, com base no segundo episódio de uma série audiovisual dedicada à obra, abordaremos os principais aspectos da introdução do livro, que já delineiam a originalidade e profundidade de sua proposta.


    A proposta de uma nova leitura da loucura

    Desde as primeiras páginas de sua obra, Bezerra de Menezes revela seu objetivo: apresentar a loucura a partir de um novo prisma — o prisma espiritual. Recusando-se a limitar a análise aos aspectos puramente neurológicos e cerebrais, ele propõe que muitos casos de insanidade mental possuem origens no espírito imortal e não apenas em lesões físicas.

    Essa proposta é coerente com a Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, que reconhece o ser humano como composto por três elementos essenciais: corpo, perispírito e espírito. Nesse tripé, o espírito é o centro da consciência, vontade e moralidade. Assim, os desequilíbrios do espírito refletem-se no corpo — ou mesmo sem atingirem o corpo, podem se expressar em distúrbios psíquicos.


    Corpo e espírito: a dualidade essencial

    Um dos pilares da obra é a distinção entre corpo e espírito. Bezerra argumenta que o ser humano verdadeiro é o espírito, que utiliza o corpo físico como instrumento de manifestação no mundo. Tal visão permite considerar que certos estados de loucura não decorrem de qualquer alteração fisiológica, mas sim de desequilíbrios espirituais, às vezes agravados por processos obsessivos, isto é, pela influência de inteligências desencarnadas.

    Ao propor esse entendimento, Bezerra não nega a importância dos conhecimentos médicos e científicos de sua época, mas os complementa, ampliando sua eficácia por meio de um olhar integral sobre o ser humano.


    Loucura orgânica e loucura obsessiva

    No vídeo analisado, eu introduzo um dos grandes méritos da obra: a classificação entre loucura orgânica e loucura obsessiva.

    Loucura orgânica: tem causas materiais, como lesões, traumatismos ou alterações químicas no cérebro.

    Loucura obsessiva: decorre da atuação persistente de espíritos desencarnados que influenciam negativamente o encarnado, muitas vezes sem qualquer lesão detectável.

    Essa diferenciação é pioneira, pois antecipa, em certo sentido, abordagens mais modernas da psicopatologia que reconhecem fatores subjetivos e espirituais na gênese dos transtornos mentais.


    A medicina da alma

    O vídeo também valoriza o perfil de Bezerra de Menezes como médico, conhecedor das ciências da saúde de seu tempo, mas que, ao integrar os princípios espíritas, ousou propor uma medicina da alma.

    Essa proposta, longe de negar os avanços científicos, busca complementá-los com terapêuticas espirituais, como o passe, a oração, a reforma moral e o tratamento desobsessivo, conforme as diretrizes das obras da Codificação.


    Considerações finais

    A introdução da obra A Loucura sob Novo Prisma já nos oferece elementos valiosos para uma verdadeira revolução no entendimento da loucura. Bezerra de Menezes abre caminho para uma psicologia e uma psiquiatria que não se limitem ao cérebro, mas incluam o espírito como centro da vida consciente e moral.

    Estudos como o apresentado no vídeo analisado têm grande relevância para tornar acessíveis esses conteúdos à comunidade espírita e ao público em geral, aproximando ciência e espiritualidade em uma visão integradora do ser humano.


    Referências:

    BEZERRA DE MENEZES, Adolfo. A Loucura sob Novo Prisma. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

    KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

    Vídeo: Episódio 2 – Estudo do livro A Loucura sob Novo Prisma, de Bezerra de Menezes. Disponível em: https://youtu.be/M0h0I9-pYxk?si=D-C_I4Ivcges1SvJ

    sábado, 22 de março de 2025

    Relatório e Estatísticas dos experimentos realizados em Curso de Magnetismo


    Grupo Espírita Semeadores da Paz – Campos dos Goytacazes/RJ

    Por Leonardo Paixão


    No dia 13 de abril de 2024 realizamos mais um encontro do Curso de Passe Magnético no Grupo Espírita Semeadores da Paz. Como fazemos desde 2018, conduzimos o estudo prático do Magnetismo e da fenomenologia espírita com espírito de observação, seriedade e fidelidade aos princípios do Espiritismo Experimental proposto por Allan Kardec.

    Nosso objetivo é registrar, comparar e analisar as percepções, sempre com prudência e respeito ao método de Kardec: observar, anotar, comparar e concluir.

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    1. Experimento – Passe à Distância


    Seis pessoas permaneceram no salão, em penumbra, concentrando-se em apenas uma pessoa específica, cujo nome foi anotado e informado em voz baixa, sem conhecimento prévio do grupo que estava na sala de passe. Quatro participantes estavam na sala, apenas receptivos.

    Após o experimento, os relatos indicaram percepções variadas: presenças espirituais, calor, expansão fluídica, passos caminhando pela sala e até um “sopro”.

    A pessoa-alvo, identificada como C., relatou ter ouvido exatamente:


    um sopro,

    passos caminhando ao seu redor.


    Essas duas percepções coincidiram diretamente com:

    - a mentalização de uma participante que sempre imagina soprar durante o passe à distância;

    - a visualização mental de outro participante que se viu caminhando até a sala.


    Essas evidências foram classificadas como duas correspondências claras entre intenção e percepção.


    O índice calculado foi de 8,33% de correspondência específica.

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    2. Experimento – Água Magnetizada


    Cinco participantes magnetizaram copos de água com intenções específicas (saúde, aroma, sabor, energia de equilíbrio, propriedades terapêuticas etc.). Os demais receberam os copos aleatoriamente e relataram suas impressões sensoriais.

    A maior parte das percepções coincidiu com o que havia sido mentalizado:

    - sabor cítrico,

    - gosto amargo,

    - sensação doce,

    - suavidade,

    - percepção aromática,

    - sensação de bem-estar.


    Quando o magnetizador não colocou intenção alguma, o receptor também nada percebeu — o que é significativo.


    O índice de correspondência percebida foi de 83,33%.

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    Conclusões Gerais


    Os resultados da água magnetizada foram altamente consistentes.

    O passe à distância apresentou menor correspondência, mas com dois acertos muito específicos, dignos de registro.

    Esses experimentos reforçam o valor da observação paciente e sistemática. Em todos os encontros, aprendemos mais sobre a interação fluídica, sobre a força da intenção e sobre a sensibilidade dos participantes.

    O Espiritismo continua sendo, como ensinou Kardec, uma ciência de observação, e nossa tarefa é trabalhar com humildade, sinceridade e perseverança.


    terça-feira, 17 de dezembro de 2024

    Nos Bastidores da Obsessão - Estudo

    Examinando a Obsessão (Continuação)

    Por Leonardo Paixão 



    Da mesma forma que as enfermidades orgânicas se manifestam onde há carência, o campo obsessivo se desloca da mente para o departamento somático onde as imperfeições morais do pretérito deixaram marcas profundas no perispírito.

    Tabagismo – O fumo, pelos danos que ocasiona ao organismo, é, por isso mesmo, perigo para o corpo e para a mente.

    Hábito vicioso, facilita a interferência de mentes desencarnadas também viciadas, que se ligam em intercâmbio obsessivo simples a caminho de dolorosas desarmonias.

     

    Para este estudo, façamos primeiro algumas breves observações, lembrando que, ao falarmos sobre cigarro, não estamos nos atendo apenas a uma forma e sim às várias formas de fumo como cigarros eletrônicos, cachimbos de fumo, narguilês, charutos, cigarros de palha, maconha, qualquer forma de utilização de fumo.

     

    Breve História do Tabaco

    A historiografia nos auxilia no entendimento de como surgem elementos como o tabaco na sociedade.

    Vejamos o que resumidamente nos trazem pesquisas a respeito:

     

    O hábito de fumar teve diversas significações ao longo da história. No processo de descoberta do continente americano o hábito seria um exotismo apreciado pelos curiosos europeus. Séculos mais tarde, as películas dos primeiros filmes norte-americanos colocavam um pomposo cigarrinho na boca de suas divas e galãs como sinal de seu estilo de vida sofisticado. Hoje em dia, é alvo de grandes disputas judiciais e campanhas que combatem o hábito extremamente nocivo à saúde.


    No entanto, quais seriam os primeiros responsáveis por criar esse hábito que ainda atrai milhares de pessoas ao redor do mundo? De acordo com as pesquisas voltadas para o assunto, a descoberta do cigarro deve ser atribuída aos nativos que moravam no continente americano. Alguns indícios arqueológicos apontam que o consumo de cigarro já acontecia há mais de oito mil anos. Os astecas fumavam o tabaco enrolado em folhas de junco ou tubos de cana. Outros povos preferiam a velha, e ainda conhecida, casca do milho.

     

    Em um vaso maia do século X, foram encontrados índicos arqueológicos com o desenho de um grupo de indígenas fumando um chumaço de folhas de tabaco enroladas a um tipo de barbante. Aproximadamente cinco séculos mais tarde, quando o navegador Cristóvão Colombo chegou à América, os europeus tomaram gosto pelos hábitos dos nativos encontrados na região das Bahamas. Na ocasião, o navegador Rodrigo de Xerxes experimentou o hábito indígena e, quando retornou à Europa, levou algumas folhas consigo.

    Algumas décadas mais tarde, os europeus passaram a reinventar os modos de consumo do tabaco. Já no século XVI apareceram os primeiros charutos, que se restringiam a uma pequena parcela da população que tinha condições de pagar pela cara especiaria. Surpreendentemente, foi o próprio caráter excludente do charuto que abriu caminho para a criação do cigarro. Trabalhadores pobres de Sevilha picavam restos de charuto na rua e enrolavam em papel.

    Criando esse “charuto alternativo” teríamos o estabelecimento dos primeiros cigarros de toda a História. Apesar da criatividade empregada e a funcionalidade do novo produto, passaram vários séculos para que o consumo de cigarro se tornasse bastante popular. Segundo algumas estimativas, no final do século XIX, o hábito de mascar tabaco era bem mais popular que o consumo do cigarro. Somente no final desse mesmo século, o cigarro foi popularizado quando James Bonsack criou a máquina de enrolar cigarros.

     

    Durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), os soldados ganhavam carteiras de cigarro nas trincheiras de guerra. Atualmente, segundo algumas estimativas, cerca de um bilhão de pessoas fumam regularmente. A popularização do seu consumo acabou incitando vários problemas de saúde pública que hoje justificam a proibição por lei do uso do cigarro em lugares onde há grande circulação de pessoas.

    https://www.historiadomundo.com.br/curiosidades/a-invecao-do-cigarro.htm

     

     

    Tendo visto acima a breve história do tabaco e o quanto o seu uso recorrente no século XX, ocasionou diversos problemas de saúde pública, levando não só à proibição de se fumar em locais fechados, mas também a não se ter propagandas como se tinha no século XX, levando a se considerar que fumar era sinônimo de elegância e status social.

    Antes de entrarmos na questão espiritual que tal hábito envolve, nunca será demais nos reportarmos ao que nos dizem especialistas em saúde a respeito.

    Da obra de um médico e amigo que, inclusive realiza um belo trabalho de atendimento voluntário no Grupo Espírita Semeadores da Paz, Campos dos Goytacazes, RJ, trazemos as seguintes recomendações:

     

    (...) Adote um estilo de vida saudável: Uma alimentação equilibrada, rica em frutas, vegetais, grãos integrais e proteínas magras, é fundamental para controlar a pressão arterial. Reduza o consumo de sal, alimentos processados, gorduras saturadas e açúcares adicionados. Além disso, pratique atividade física regularmente e evite o tabagismo e o consumo excessivo de álcool.

    (...)

    Evite o tabagismo: Fumar danifica os vasos sanguíneos e aumenta o risco de hipertensão e doenças cardiovasculares. Se você fuma, procure ajuda para parar e evite a exposição ao fumo passivo. (MARCELO, Paulo. Saúde ativa para terceira idade: dicas e orientações. Rio de Janeiro, RJ: Autografia, 2023. Cap. 2 – Hipertensão: Monitoramento da pressão arterial e cuidados preventivos. pp. 19 e 20)

     

    E atentemos às recomendações da Organização Mundial da Saúde:

     

    A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou nesta terça-feira (2) um conjunto de intervenções contra o tabagismo, incluindo apoio comportamental a ser oferecido por profissionais de saúde, intervenções digitais e tratamentos farmacológicos. Esta é a primeira vez que a entidade apresenta diretrizes para o tratamento contra o tabagismo.

    A proposta, segundo a OMS, é ajudar mais de 750 milhões de usuários de tabaco que desejam abandonar o consumo de diversos derivados do tabaco, incluindo os tradicionais cigarros, narguilés, produtos de tabaco sem combustão, charutos, tabaco de enrolar e produtos de tabaco aquecido (HTP).

    “Essas diretrizes representam um marco crucial na nossa batalha global contra esses produtos perigosos”, avaliou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. A estimativa da entidade é que mais de 60% dos 1,25 bilhões de usuários de tabaco em todo o mundo – mais de 750 milhões de pessoas – desejam parar de fumar, mas 70% não têm acesso a serviços eficazes.

    Recomendações

    De acordo com a OMS, a combinação de farmacoterapia com intervenções comportamentais aumenta significativamente as taxas de sucesso no abandono do tabagismo. “Países são incentivados a fornecer esses tratamentos sem custos ou com custos reduzidos para melhorar a acessibilidade, especialmente em nações de baixa e média renda”.

    Dentre as diretrizes, a entidade recomenda o uso de vareniclina, medicamento que tem a função de diminuir o desejo intenso de fumar, além de aliviar crises de abstinência (sintomas mentais e físicos que ocorrem após a interrupção ou diminuição do consumo da nicotina).

    Outra recomendação é a terapia de reposição de nicotina (TRN), que pode ser feita, segundo critério clínico, utilizando goma de mascar de nicotina, pastilha de nicotina ou adesivo transdérmico de nicotina.

    As diretrizes incluem ainda medicamentos como bupropiona ou cloridrato de bupropiona (antidepressivo) e citisina (fármaco à base de plantas) no tratamento contra o tabagismo.

    A OMS também recomenda intervenções comportamentais, incluindo aconselhamento breve com profissionais de saúde, com tempo médio de 30 segundos a três minutos, oferecido como rotina em ambientes de cuidados em saúde, além de apoio comportamental mais intensivo por meio de aconselhamento individual, em grupo ou por telefone.

    Dentre as intervenções digitais sugeridas pela entidade estão mensagens de texto, aplicativos para smartphone e programas de internet a serem utilizados como “complementos ou ferramentas de autogestão”.

    https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2024-07/oms-lanca-diretrizes-ineditas-para-tratamento-contra-o-tabagismo

     

    Tendo explorado até aqui as questões ligadas à saúde do corpo físico e sem que venhamos fazer uma proposta cartesiana de dicotomizar corpo/Espírito, até porque somos seres integrais: Espírito, mente, corpo, e transitamos nas mais diversas esferas da vida (espiritual, social e física) avançando para a sublimação onde um dia estaremos plenos porque vivendo junto ao Criador, tratemos agora das questões da obsessão espiritual ligadas ao tabagismo.

    Como, em geral, o processo obsessivo inicia-se de modo sutil, assim também, ocorre no caso do tabagismo. No decorrer do século XX, como vimos acima, haviam muitas propagandas de cigarros unindo elementos como carros do ano e belos homens e mulheres, além de filmes os mais diversos em que os protagonistas apareciam com seus cigarros como símbolo de elegância e de status social, o que levou considerável número de pessoas a aderirem a tal prática prejudicial às suas saúdes. Entre os jovens da época, a busca por aceitação no grupo popular da escola e para serem os “descolados”, propiciou que o consumo do cigarro aumentasse entre esse grupo social. Estudando o campo da obsessão, não nos é difícil perceber que a técnica usada pelos obsessores nesses casos é a de inspirar pensamentos tanto aos colegas quanto ao indivíduo em prova tais como: “Vamos, dê só uma tragada...só um tapa”; “Ah! Que é isso?! Uma vez só não há de me fazer mal, né?” “Aquela garota (ou aquele garoto) vai ficar mais próxima (o) de mim se eu estiver na mesma vibe dele (a)”. Pegando o cigarro e experimentando a primeira vez e vindo a sensação de aceitação de um grupo de colegas ou de uma (um) garota (o) da (o) qual se gosta, está estabelecido o laço espiritual que, mais adiante, levará a consequências terríveis, caso não se afaste a pessoa desse mau hábito.

    E a obsessão que leva à intensificação de uso de substâncias nocivas ao organismo não prejudica apenas ao próprio indivíduo, mas também às pessoas com quem convive, tanto assim é, que há um comportamento chamado de codependente para pessoas que convivem com pessoas com transtorno de tabagismo (CID F17) bem como para pessoas que convivem com pessoas com transtorno de uso de substâncias (CID F19). Consideramos que, muitos casos de saúde pública como é o tabagismo, são extensões da influência aterradora que Espíritos obsessores promovem entre os seres humanos, não à toa, Allan Kardec, em A Gênese, chamar ao processo obsessivo de um verdadeiro flagelo na humanidade.

    O médico Nubor Orlando Facure, neurocirurgião, ex-professor titular da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), no seu livro O cérebro e a mente, diz que, entre as doenças espirituais compartilhadas, além da obsessão, está o vampirismo. O que seria isso? E qual a relação com o cigarro?

    Diz o neurocirurgião: “O mundo espiritual é povoado por uma população numerosíssima de Espíritos. Contamos com eles como guias e protetores, mas, na maioria das vezes, nós atraímo-los pelos vícios e eles aprisionam-nos pelo prazer. Nesses desvios da conduta humana, a mente do responsável agrega em torno de si elementos fluídicos que, aos poucos, vão construindo miasmas psíquicos com extrema capacidade corrosiva do organismo que a hospeda. Nessa associação, há uma tremenda perda de energia por parte do responsável pelo vício, daí a expressão vampirismo ser muito adequada para definir essa parceria”.

    Portanto, quem cultiva o hábito do fumo atrai companhias que fumam espiritualmente junto delas. Se você deseja a companhia dos bons e da saúde, evite os vícios, tanto os físicos (álcool, fumo etc.) como os morais.

     
    Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo é editor da Editora EME e especialista em dependência química pela USP-SP-GREA.

    https://www.oconsolador.com.br/ano11/524/ca2.html

     

     

    Até aqui falamos sobre o tabaco, mas, não podemos deixar de lembrar que logo no início, deixamos claro que essas considerações, notadamente as socio-espirituais, não se resumem apenas ao cigarro em si e falam sobre as várias formas de fumo possíveis, incluindo aí a cannabis (maconha). O Dr. Ronaldo Laranjeira (Psiquiatra), em seu perfil no instagram, tem alertado com informações as mais variadas, fundamentadas em sérias pesquisas, sobre os efeitos nocivos da canabis, especialmente entre os jovens. Em post realizado no dia 29 de novembro deste ano, traz o especialista um resumo do estudo sobre cannabis e transtorno bipolar (para citarmos só um de seus posts a respeito):

     

    O estudo “Exposição precoce à cannabis e incidência de transtorno bipolar: resultados de um estudo de coorte de nascimentos de 22 anos no Brasil”, buscou investigar se o uso de cannabis na adolescência está relacionado com o desenvolvimento de transtorno bipolar na vida adulta, controlando por outros fatores como histórico familiar, socioeconômico e uso de outras drogas.

    Foram analisados dados de uma coorte de nascimentos no Brasil, acompanhando os participantes desde o nascimento até os 22 anos. A exposição à cannabis foi avaliada aos 18 anos, e o diagnóstico de transtorno bipolar aos 22 anos. Foram controladas diversas variáveis, como status socioeconômico, abuso físico na infância e uso de cocaína.

    Resultados:

    O uso de cannabis na adolescência foi inicialmente associado a um maior risco de desenvolver transtorno bipolar na vida adulta.

    Ao controlar por outras variáveis, incluindo o uso de cocaína, a associação entre cannabis e transtorno bipolares tornou menos evidente.

    Quando o uso de cannabis e cocaína foi analisado em conjunto, o risco de desenvolver transtorno bipolar aumentou de maneira relevante, mesmo após o ajuste para outras variáveis.

    O abuso físico na infância e o sexo também influenciaram a relação entre o uso de cannabis e o desenvolvimento do transtorno bipolar.

    O estudo encontrou uma associação entre o uso de cannabis na adolescência e o desenvolvimento de transtorno bipolar, mas essa asssociação é influenciada por outros fatores, como o uso de cocaína. São necessárias mais pesquisas para esclarecer essa relação complexa.

    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38378931

     

    Recomendamos também este outro estudo: O uso de cannabis em jovens está associado à inflamação crônica - https://pubmed.ncbi.nlm.gov/39648682

     

    Estas algumas das consequências do tabagismo e das mais variadas formas de fumo, devemos atentar, porém, que o ser humano não está isento de responsabilidade, porque a escolha está em suas mãos e já nos alertam os Espíritos Superiores a esse respeito:

     

    459. Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos?

    “Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que de ordinário são eles que vos dirigem”. (O Livro dos Espíritos – Parte 2º - Cap. IX)

     

    Não há aí interferência em nosso livre-arbítrio, porque tanto os bons quanto os maus Espíritos nos inspiram, mas a decisão de agir par o bem ou para o mal é nossa e caberá a nós arcarmos com as consequências de nossas escolhas