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segunda-feira, 9 de julho de 2018

SÍNTESE DOS PRINCÍPIOS DOUTRINÁRIOS DO ESPIRITISMO

O Universo inteiro, no mínimo e no máximo, está sujeito a uma evolução constante e progressiva.

Há evolução para o Princípio material; há evolução para o Princípio psíquico.

A base da evolução, a Alma é um simples elemento de vida, uma inteligência em germe. É a força difusa que associa e mantém as moléculas minerais numa forma definida.

No cimo da evolução, a Alma é um Princípio vivo, consciente e livre, guardando apenas, da sua associação à matéria, o mínimo orgânico necessário à conservação da sua individualidade.

No curso da sua evolução progressiva, a Alma passa por organismos cada vez mais aperfeiçoados, numa série imensa de encarnações e desencarnações.

A memória dos estados precedentes fica mais ou menos latente, durante cada encarnação, para reaparecer após a morte, tanto mais extensa quanto mais evoluído for o indivíduo.

A Alma conserva intacta a sua individualidade, mercê da sua união indissolúvel com o organismo fluídico, chamado CORPO ASTRAL ou PERISPÍRITO, que evolui com ela.

O PERISPÍRITO é o Princípio intermediário entre a matéria e o Espírito, cuja finalidade é tríplice:

- Manter indestrutível e intacta a individualidade;
- Servir de substrato ao corpo físico durante a encarnação;
- Constituir o laço de união entre o Espírito e o corpo físico, para a transmissão recíproca das sensações de um e das ordens do outro.

Na morte natural o Espírito abandona o corpo por este lhe ser inútil à sua evolução.

No nascimento, o Espírito toma posse de um organismo novo para dar continuidade ao seu progresso.

Durante as fases da vida espiritual, o Espírito pode manifestar-se, em certas condições, cujo estudo é o objeto do Espiritismo experimental.

Dr. Gustave Geley
Médico e antigo Diretor do Instituto Metapsíquico de Paris.

Desencarnou em 1943 em acidente aéreo.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

PSICANÁLISE E ESPIRITISMO

Por Leonardo Paixão (*)

A Psicanálise é uma ciência surgida no século XX, especialmente com a edição do livro de Freud "A  Interpretação dos Sonhos" que saiu em 1900. Obviamente, o fundador da Psicanálise, Sigmund Freud, escreveu antes do ano 1900 artigos e livros como o de parceria com o Dr. Joseph Breuer - Estudos sobre a Histeria (**) - onde iniciou seus estudos sobre o inconsciente a partir de experiências em uma paciente histérica, Anna O. (Berta Parpenhheimme) através da hipnose. Com estas experiências, Freud utilizou a hipnose em sua forma catártica. Aqui foi Freud adentrando mais intensamente no mundo do inconsciente.

Teorias sobre o inconsciente haviam surgido já, tanto nas obras do alemão Franz Hartmman,  quanto na do francês Pierre Janet em sua célebre obra "O Automatismo Psicológico", obras estas utilizadas por cientistas dos mais diversos campos para explicar os fenômenos mediúnicos e assim tombar a teoria espírita.

Allan Kardec em seu tempo não teve acesso às teorias do inconsciente, na Introdução de "O Livro dos Espíritos" é que ele fala sobre teorias que nos remetem a fenômenos que se poderiam dizer do inconsciente, como a teoria reflexiva e a sonambúlica. Na primeira, o médium seria um reflexo das ideias dos assistentes e na sonambúlica, o médium poderia haurir seus conhecimentos a quilômetros de distância. Kardec contradita estas teorias com argumentos que estas duas teorias não dão respostas, como o fato de se o médium é um reflexo dos conhecimentos dos assistentes, como ele pode falar em idioma que todos os presentes desconhecem? E como ele poderia haurir conhecimentos a quilômetros de distância, até em outros planetas quando há explicação muito mais prática e que, segundo Kardec, fala à razão, que é a comunicação dos Espíritos e também porque o sonâmbulo falando por ele mesmo, ora daria palavras cultas e ora grosseiras, obscenas mesmo? 

"O Livro dos Espíritos", saído a 18 de Abril de 1857 e tendo em sua 2. edição sua roupagem definitiva em 1860, avançou em suas pesquisas e  em 15 de Janeiro de 1861 dava a público "O Livro dos Médiuns", onde na Segunda Parte, nos capítulos XIX, XX e XXI, tratará "Do papel dos médiuns nas comunicações espíritas"; "Da influência do médium"; "Da influência do meio". Há quem sem maiores conhecimentos sobre o conceito de inconsciente na Psicanálise, afirme que antes de Freud, Kardec já havia estudado o inconsciente, esta porém, é uma afirmação completamente infundada, basta a observação quanto à diferença do objeto estudado por um e por outro. Enquanto Kardec pesquisou até que ponto os conhecimentos atuais ou anteriores (de existências passadas) influenciavam as comunicações espíritas e também a moral, o caráter do médium, Freud pesquisou a influência do inconsciente no próprio indivíduo, derivando daí conflitos, complexos, neurose-obsessiva, histeria, fobias, etc...
Para Kardec o objeto estudado não é, no caso dos fenômenos mediúnicos, o sujeito em si e sim o que poderão os conhecimentos do indivíduo em tal ou ou qual assunto, afetar, interferir, mesclar-se às comunicações mediúnicas que por ele surjam. Aqui não se tem movimento intenso em busca dos processos inconscientes quanto ao sujeito em si mesmo.

Freud ao pesquisar o inconsciente trouxe vários conceitos como o recalque, a censura, a repressão, o Id, o Ego e o Super Ego,  o ato falho, o chiste, complexo de Édipo, narcisismo, diferenciou neurose, psicose, perversão.

O espírita que em não conhecendo as teorias psicanalíticas poderá cair em erro e é o que frequentemente acontece, ao se referir aos conceitos freudianos. Daremos aqui em resumo o significado das expressões por nós aqui postas e que são próprias à psicanalise.

Recalque - um desprazer que se teve.

Censura - o Ego.

Repressão - Super-Ego (é como um "pai" a dizer: "não faça isso", "não pode fazer isso").

Id - "Seria essa parte ligada aos nossos instintos. De maneira simplificada, ele é simplesmente voltado ao prazer, à libido, às nossas paixões e impulsos primitivos. Se nosso cérebro fosse composto apenas por este reservatório de energia da psique, seríamos basicamente, selvagens!".

Super-Ego - "é a parte da psique que te controla e regula a partir de todos os padrões e normas sociais vigentes. Por isso, ele é desenvolvido de acordo com as noções de moral da sociedade e época em que vivemos.

Ego - "é a divisão que fica no meio de tudo isso, tentando nos equilibrar e criando harmonia em nossa personalidade sempre. Ele tenta suprir as exigências do Id de forma moral e "barrar" tudo aquilo que não seria aceito pelas normas e padrões que nos são impostos, ou seja, tudo aquilo que o Superego nos traz. Sendo assim, o Ego é a nossa personalidade desenvolvida em si e também a nossa parte racional".

Atos falhos - erros em nossos diálogos ou memórias que parecem dizer aquilo que sempre desejamos, mas nunca tivemos coragem de admitir ou liberdade para, de fato, poder expressar.

Chiste - vulgarmente se diz: "brincando que se diz muitas coisas que se quer dizer". Em Psicanálise investiga-se o que nas anedotas, brincadeiras, enfim, nos chistes, se quer dizer e que não está dito claramente.

Complexo de Édipo - baseado no mito grego de Édipo onde se fala do apaixonamento do filho em sua primeira infância pela mãe e da filha por seu pai, obviamente que neste espaço não podemos dissertar sobre este conceito central da Psicanálise.

Narcisismo - o sujeito tem a si mesmo por objeto de desejo em uma condição exacerbada.

Inconsciente - para a Psicanálise, o inconsciente é constituído na primeira infância e o que é desprazer vai para o inconsciente.

 "(...) o inconsciente é um saber no qual o sujeito pode se decifrar. É a definição de sujeito que aqui dou. Do sujeito tal como o constitui o inconsciente".
Jacques Lacan (Seminário).

Colocando aqui estes conceitos da Psicanálise, desejamos expressar a total diferença entre o objeto de estudo de Kardec e o de Freud, assim como também esperamos contribuir aos interessados em aprofundarem-se nestes temas da psique humana, que busquem ampliar seus conhecimentos no ramo e também aos espíritas que, a partir destes conhecimentos, possam perceberem-se como seres singulares e vivenciar o autoconhecimento enquanto seres de desejo e assim também não estarem a culpabilizar obsessões e obsessores por conflitos surgidos nos agrupamentos que frequentam, esquecendo-se da fala própria aos espíritas: "Só há obsessores porque há obsidiados".

Que em nos conhecendo possamos dignificar a obra a que nos propomos: nossa renovação moral.

Campos, RJ, 24/11/2017.

(*) Leonardo Paixão é trabalhador espírita em Campos dos Goytacazes, RJ, Dirigente do Grupo Espírita Semeadores da Paz. Profissionalmente é Psicanalista.

(**) Parte destes estudos foram reproduzidos no livro "A Personalidade Humana", de Frederic Myers (estudioso dos fenômenos psíquicos). 

quarta-feira, 13 de junho de 2018

SUGESTÃO MENTAL

Hernâni Guimarães Andrade
Revista de Espiritismo nr. 31 - Abril/JunhoOutubro 1996
«A acção do pensamento de um indivíduo sobre o outro é ainda um fenómeno inexplicável, mas o nosso pensamento comunica-se pela palavra, pelos gestos, isto é, pelo som, pela luz. Quem sabe se as modificações da nossa alma não podem tornar-se sensíveis por outros meios? A que se prende este sentimento inerente à natureza humana, que nos faz desejar que um amigo ausente se ocupe connosco?». (1)
Praticamente não há diferença essencial entre as expressões telepatia, sugestão mental, transmissão de pensamento, e outras mais. Todas elas sugerem a possibilidade de influência directa de uma mente sobre outra, sem a intervenção dos meios normais e físicos de comunicação. Esta influência poderá dar-se de dois modos:
  1. uma mente projecta um pensamento direccionado, de maneira a provocar uma influência em outra ou várias mentes capazes de receber passivamente o pensamento enviado;
  2. uma mente capta de uma outra mente um dado pensamento, sem que, necessariamente, haja intenção ou esforço para sua transmissão por parte do emissor.
De qualquer forma, na telepatia, ambas as operações devem ocorrer, pois sempre há o emissor e o receptor. Mas quando se particulariza a expressão "sugestão mental", deve observar-se uma ligeira diferença. Deve pensar-se na possibilidade de uma mente mais poderosa impor activamente o seu pensamento a uma outra que se submete passivamente àquela influência. Naturalmente é indispensável acrescentar que estamos a referir-nos, ainda, à transmissão sob forma telepática, isto é, sem o emprego dos meios normais de comunicação.
A palavra telepatia foi inventada por F. W. H. Myers, em 1882. Naquela ocasião, Myers, Edmund Gurney, Henri Sidgwick, e o professor W. F. Barret investigaram as possibilidades da transmissão do pensamento. A significação dada por eles era: "uma coincidência entre os pensamentos de duas pessoas, que requer uma explicação causal". Foi definida como "transmissão de pensamento independentemente dos reconhecidos canais dos sentidos". Etimologicamente, a palavra telepatia é formada pela fusão de dois vocábulos gregos: telê = ao longe; pathós = influência. Todavia não se conhecem os mecanismos da transmissão telepática. Não se sabe que espécie de onda, ou partícula elementar, responde pela comunicação entre as duas mentes — ou cérebros — das pessoas implicadas numa operação telepática. Foi justamente o interesse em conhecer os processos envolvidos em tal fenómeno que deu origem às investigações em torno da "sugestão mental". Em boa parte, a possibilidade de tal investigação resultou dos fenómenos telepáticos observados durante a hipnose. Outra fonte de pesquisa foram as ocorrências de avisos de morte, comunicações telepáticas espontâneas em casos dramáticos ou mesmo banais, mas com significância para certas pessoas.
Vamos, inicialmente, focalizar a área concernente aos fenómenos telepáticos ligados à hipnose e assinalados inicialmente pelos magnetizadores e hipnotizadores. Estes fenómenos dependiam do estado de rapport descoberto pelos mesmeristas, durante o qual podiam assinalar-se a transmissão de pensamentos, emoções, sintomas mórbidos, etc. Ainda, actualmente, em grupos espiritualistas, nas clínicas onde se acolhem práticas mesméricas, ou algo equivalente, podem registar-se fenómenos do tipo telepático, durante os quais os médiuns — ou sensitivos — "captam" os sintomas dos pacientes em tratamento. Mas observou-se, também, que havia possibilidade de o hipnotizador "enviar" ordens mentais a determinado paciente, levando-o a cumprir sugestões mentais assim transmitidas. Algumas dessas sugestões mentais eram captadas pelo paciente situado a grande distância do hipnotizador.
Paracelso (1493-1541) já escrevera: "Pelo mágico poder da vontade, uma pessoa deste lado do oceano pode fazer uma pessoa no outro lado ouvir o que é dito neste lugar... o corpo etérico de um homem pode conhecer o que outro homem pensa, à distância de 100 milhas ou mais". (2) Ele teria afirmado: "É possível que meu espírito, sem o auxílio do meu corpo e por meio de uma ardente vontade exclusivamente, e sem uma espada, possa perfurar e ferir outras pessoas. É também possível que eu consiga trazer o espírito de meu adversário para dentro de uma imagem e então envolvê-lo ou estropiá-lo ao meu belo prazer" (3)
A acção da mente à distância, seja sobre outra mente seja sobre a matéria, sempre foi admitida em todos os tempos e lugares. Encontra-se esta crença ao longo da história e entre todos os povos, selvagens ou civilizados. Deve, portanto, existir uma razão para semelhante ideia assim tão generalizada. Alguns investigadores procuraram certificar-se da realidade da "sugestão mental", e obtiveram resultados que a confirmaram.

Um investigador à procura dos factos

O doutor Julian Ochorowicz (1850 - 1918), psicólogo e filósofo polaco, lente de Psicologia e Filosofia na Universidade de Lemberg, co-director desde 1907 do Institut Général Psychologique de Paris, foi um dos mais ilustres e competentes investigadores da "sugestão mental". A sua obra, A Sugestão Mental, é um clássico da literatura parapsicológica. Nela o doutor Ochorowicz faz extenso e minucioso relato das suas investigações acerca dos fenómenos de telepatia. O seu trabalho divide-se em diversas secções conforme as diferentes modalidades de telepatia por ele encontradas em sua extensa experiência pessoal. Vamos enumerar algumas delas: Sugestão mental aparente; sugestão mental provável; sugestão mental verdadeira; simpatismo orgânico; simpatismo e contágio; transmissão dos estados emotivos; transmissão das ideias; transmissão directa da vontade; acção da vontade e a questão da "relação"; acção sem que o sonâmbulo saiba, ou contra a sua vontade; sugestão mental a prazo; sugestão mental à distância. Infelizmente é impossível tratar de todas estas modalidades em tão curto espaço, mas faremos o possível para expor pelo menos alguns exemplos interessantes.
Ochorowicz, no cap. I do seu livro, confessa que inicialmente não acreditava na "sugestão mental". Em 1867, em Lublin, pela primeira vez Ochorowicz experimentou verificar a sugestão mental com um rapaz de 17 anos, assaz difícil de adormecer, mas que manifestava, depois de hipnotizado, certos fenómenos curiosos. Ele reconhecia, por exemplo, qualquer pessoa de suas relações que apenas lhe tocasse nas costas com um só dedo. Deste modo ele conseguiu, certa ocasião, distinguir sucessivamente 15 pessoas, algumas das quais haviam entrado na sala depois de estar ele adormecido. Certa ocasião, aconteceu-lhe identificar uma senhora que penetrava na sala sem que ele soubesse e a qual vira pela primeira vez alguns dias antes. Estes factos, porém, não convenceram Ochorowicz; nem outros mais evidentes ainda, ocorridos com o mesmo sonâmbulo. Ele buscava factos realmente inexplicáveis. Seu cepticismo era muito acentuado e sua exigência neste sentido muito grande. Ochorowicz procurou investigar mais outros casos e terminou por encontrá-los.
O primeiro caso que ele classificou de "sugestão mental verdadeira" ocorreu ocasionalmente com uma sua paciente.

Sugestão mental verdadeira

Em 25 de Janeiro de 1886, J. Ochorowicz comunicou à Sociedade de Psicologia Fisiológica de Lemberg um relato de suas observações e experiências de "sugestão mental à distância" levadas a efeito com a srª. M., de 27 anos de idade. Em Agosto de 1886, foram publicados alguns excertos dessas experiências.
A srª. M. era cliente do doutor Ochorowicz. Tratava-se de uma mulher jovem, aparentemente forte, bem constituída e de saúde perfeita. Porém, esta senhora sofria, há algum tempo, de uma histero-epilepsia, agravada, mais tarde, por acessos de mania de suicídio.
Uma noite, após tê-la assistido durante um dos seus ataques e declarando-se ela melhor, a seu próprio pedido o doutor Ochorowicz resolveu retirar-se. Ficara apenas uma amiga da srª. M. Apesar de vê-la bem disposta, o doutor Ochorowicz desceu lentamente as escadas (ela morava no terceiro andar), detendo-se várias vezes com o ouvido à escuta, perturbado por um mau pressentimento. Chegado ao portão deteve-se mais uma vez. De repente, a janela abriu-se com ruído, e ele viu o corpo da srª. M. inclinar-se para fora. Ele precipitou-se para o lugar onde ela devia cair. Maquinalmente, concentrou a sua vontade no intuito de opor-se à sua queda. A doente, já inclinada, deteve-se e recuou lentamente por sacudidelas.
A mesma manobra repetiu-se cinco vezes seguidas. Finalmente a doente, como que fatigada, imobilizou-se, encostando-se no parapeito da janela.
Ela não poderia ter visto o doutor Ochorowicz, porque era noite e ele achava-se na parte não iluminada. Naquele momento, a amiga que ficara com a srª. M. acudiu e agarrou-a pelos braços, lutando para afastá-la dali. O doutor Ochorowicz subiu as escadas rapidamente e encontrou a doente num acesso de loucura. Depois de muita luta, foi conduzida ao leito e posta em estado sonambúlico. Uma vez em sonambulismo ela revelou que era seu intuito atirar-se mesmo pela janela, mas que naquele momento, cada vez que tentara fazê-lo, uma força a "reerguera por baixo". Não suspeitava que o médico ainda estivesse presente. Aproveitara, então, a ocasião para tentar o suicídio: "Entretanto pareceu-me por momentos que estáveis ao meu lado ou por detrás de mim e que não queríeis que eu caísse" — disse ela ao doutor Ochorowicz.
Este incidente levou o médico a experimentar com a srª. M. a "sugestão mental à distância". Ele costumava adormecê-la de dois em dois dias. Era a rotina do seu tratamento. Durante esses momentos ele observava-a e tomava notas em seu memorial.
Dia 2 de Dezembro de 1885, Ochorowicz tinha a sua paciente adormecida. Ele encontrava-se a certa distância da sua cama e fingia tomar notas em seu caderno. Porém, interiormente, concentrava sua vontade sobre uma ordem mental dada: "erga a mão direita" — 1º minuto: acção nula; 2º minuto: uma agitação na mão direita; 3º minuto: a agitação aumenta, a doente franze as sobrancelhas e ergue a mão direita!
Animado por este sucesso, o médico deu-lhe outra ordem mental: "Levante-se lentamente com dificuldade e vá até ele, com a mão estendida"!
E assim, sucessivamente, Ochorowicz conseguiu que sua paciente obedecesse, com êxito, a várias ordens mentais. Em algumas ocasiões as ordens mentais não eram atendidas imediatamente, e a paciente parecia embaraçar-se ao cumpri-las. Todas as ordens mentais eram dadas silenciosamente e sem gestos.
Ochorowicz relatou ao todo 14 sessões levadas a efeito de 2 de Dezembro de 1885 a 5 de Fevereiro de 1886, durante as quais ele fez um número enorme de experiências de sugestão mental, com grande êxito e com a mesma srª. M.
Ochorowicz teve a oportunidade de registar outros casos semelhantes ocorridos com diversas pacientes tratadas por ele em sua clínica normal. Naquela época, estava muito em voga o hipnotismo, e grande número de psiquiatras usava-o correntemente e com êxito no tratamento das moléstias nervosas. Hoje em dia, infelizmente, generalizou-se o uso de drogas...

As experiências no Havre

Julian Ochorowicz tomou conhecimento através de uma conferência das experiências de sugestão mental à distância que os doutores Pierre Janet e Gibert haviam feito com a srª. Léonie, no Havre. No mês de Novembro de 1885, o doutor Paul Janet, tio do doutor Pierre Janet, leu perante a Sociedade de Psicologia Fisiológica uma comunicação do seu sobrinho, o doutor Pierre Janet, que era professor de Filosofia no Liceu do Havre. A sua tese levava um título um tanto vago: "Sobre alguns fenómenos de sonambulismo". Porém, o conteúdo da tese encerrava assunto muito grave, pois colidia com a posição fisiologista que já imperava em amplos sectores das escolas psicológicas. O nome da Sociedade de Psicologia Fisiológica faz presumir que o título da tese foi propositadamente vago para lá ter entrada. Entretanto, tratava-se de uma série de observações feitas sobre factos que evidenciavam não só a existência de fenómenos de "sugestão mental" em geral, mas, o que era mais extraordinário, de "sugestão mental à distância de alguns quilómetros e sem que o paciente o soubesse!".
O comunicado de Pierre Janet certamente provocou um impacto na assistência. O auditório, conforme declarou o doutor Ochorowicz, "prestou a isto a maior atenção, não sem uma grande dose de incredulidade. O sr. Janet absteve-se de qualquer teoria; somente relatava os factos, devia crer-se ou não. A comunicação ouvida em silêncio, foi em seguida passada sob silêncio, salvo algumas considerações de um carácter mui geral, formuladas pelo sr. Charcot, nosso presidente".(4)
Ochorowicz já houvera feito inúmeras experiências de "sugestão mental", mas a curta distância, achando-se o paciente sob acção hipnótica, como no caso da srª. M. Em outra ocasião uma nova paciente. A srª. B. estava desperta, mas achava-se a pequena distância e apenas executou algumas ordens mentais em estado de vigília. Porém, os doutores Pierre Janet e Gibert foram bem sucedidos, adormecendo o paciente à distância e dando-lhe ordens mentais que foram obedecidas. O caso interessou vivamente Ochorowicz:
"Eis o que me pareceu estranho" — diz ele — "É este último fenómeno que eu queria verificar desde logo, reconhecendo o seu valor por uma teoria de sugestão e pelo problema do magnetismo em geral. É evidente que uma semelhante constatação seria a morte da teoria exclusiva do hipnotismo contemporâneo, que se gabava de ser o sucessor legítimo do extinto magnetismo animal, e que não deveria de ora em diante ocupar senão um lugar mui modesto ao lado do seu predecessor. (...)". (5)
Interessado em obter pessoalmente, uma confirmação ou negação dos factos relatados pelos doutores Janet e Gibert, Ochorowicz dirigiu-se ao Havre, acompanhado de alguns colegas entre eles o famoso investigador, F. W. H. Myers, que naquela época estava em plena actividade em busca de fenómenos de telepatia. Myers fez constar o episódio do Havre em sua obra clássica Human Personality and its Survival of Bodily Death (6). Os outros observadores eram o professor Paul Janet, doutores Jules Janet e A. T. Myers (irmão de F. W. H. Myers) e o sr. Marillier.
Entre 3 e 9 de Outubro de 1885 puderam estes senhores observar inúmeras vezes a srª. Léonie ser hipnotizada à distância de mais de dois quilómetros e receber ordens mentais como, por exemplo, sair à rua e ir até ao consultório dos doutores Janet e Gibert.
Estes factos colocam a hipnose numa nova categoria de fenómenos e, em parte, restabelece as antigas hipóteses do "magnetismo animal", muito embora não invalidem as hipóteses de Pavlov. Apenas elas sugerem que, ao lado das bases fisiológicas do fenómeno da hipnose, deve cogitar-se da possibilidade de existir algo, ainda não bem conhecido, capaz de provocar a inibição cortical e accionar o paciente, levando-o a obedecer a determinadas ordens telepáticas emanadas do operador.

Conclusão

Mesmer e Puységur redescobriram algo já há muito conhecido dos sacerdotes, sábios, magos e iluminados antigos e que ainda permanece mal conhecido dos cientistas contemporâneos. Os modernos hipnologistas, até agora, apenas tocaram as orlas empíricas dos defeitos e dos fenómenos tangíveis do hipnotismo. Suas leis mais profundas ainda estão para ser desvendadas.
No próximo número iremos falar a respeito das experiências de L. L. Vasiliev, bem como de outras pesquisas que se fazem no sentido de sondar o estranho fenómeno de interconexão que parece achar-se na base da nossa realidade existencial.

Bibliografia

(1) Deleuze - «Histoire Critique», etc., Paris, 1813, t. II, p. 327).
(2) Fodor, N. - Encyclopaedia of Psychic Science, USA: University Books, 1974, p. 384).
(3) Spence, L. - An Encyclopaedia of Occultism, Secaucus, N.J.: The Citadel Press, 1974, p. 315).
(4) Ochorowicz, J. - A Sugestão Mental, trad. J. L. Souza - Rio de Janeiro: H. Garnier, 1903, p. 123).
(5) Opus cit. P. 123).
(6) New Hyde Park, N. Y.: University Books, 1961, pp. 140-142).

Hernâni Guimarães Andrade é Engenheiro

quarta-feira, 14 de março de 2018

FIDELIDADE

" Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim" - Jesus - Mateus, 24: 46.

O servidor e discípulo fiel ao Evangelho do Senhor, não se negará ao serviço havendo esta ou aquela dificuldade no caminho.

Nos círculos do Espiritismo-Cristão, adverte-se sempre que "só leva pedrada a árvore que produz bons frutos". Isto se refere, justamente às dores, padecimentos morais que, não raro, partem com maior intensidade de companheiros mesmo de Ideal.

Manter-se firme no trabalho, mantendo o hábito diário da oração e do trabalho ativo em prol do próximo necessitado, deve ser o roteiro do trabalhador cristão que há de ser o espelho redivivo dos "irmãos do Caminho" - os cristãos de outrora - assim irradiando a Luz e a Presença do Cristo na vida de todos nós. 

Que não nos iludamos com departamentos e instituições repletas, façamos o trabalho do Evangelho - este o nosso chamado.

Alberto, guia do médium
(Página recebida pelo médium Leonardo Paixão em reunião de Tratamento Magnético no dia 06/03/2018 no Grupo Espírita Semeadores da Paz, Campos, RJ).

quarta-feira, 7 de março de 2018

ARTIGO: EVANGELHO E DOUTRINA

EVANGELHO E DOUTRINA
Por Leonardo Paixão (*)

"Assim procedemos, porém, ponderando que, num _colar de pérolas_ , cada qual tem valor específico e que, no imenso conjunto de ensinamentos da Boa Nova, cada conceito do Cristo ou de seus colaboradores diretos adapta-se a determinada situação do Espírito, nas estradas da vida" (XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. 20. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. Prefácio. p. 14).

Deste trecho das justificativas do Espírito Emmanuel para a sua primeira obra de interpretação profunda das passagens evangélicas, citando versículos isolados, vejamos o que nos diz um estudioso das letras evangélicas sobre a expressão "colar de pérolas" usada por Emmanuel.

"Dentre os inúmeros métodos de interpretação encontrados no _Midraxe_ (compêndio de exegese judaica), a harizah (colar em pérolas) ocupa um lugar privilegiado, já que é utilizada pelos mestres hebreus toda vez que desejam ensinar à comunidade um ponto importante da fé de Israel, difícil de ser apreendido pela leitura puramente literal do texto bíblico.
Selecionamos um texto da tradição judaica que descreve a _harizah,_ demonstrando a sua importância como técnica de estudos das Escrituras:
'Quando faziam colares das palavras da Torah aos profetas, e dos Profetas aos Escritos, o fogo flamejava em torno deles e as palavras tornavam-se jubilosas, como quando foram pronunciadas no Sinai: quando pronunciadas pela primeira vez no Sinai, foram dadas entre chamas, como foi dito: a montanha ardia em fogo, até as profundezas do céu. Ben Azai estava sentado e perscrutava a Escritura e o fogo flamejava em torno dele... Rabi Agiba aproximou-se e disse-lhe: Ouvi dizer que perscruta as Escrituras e o fogo flameja em torno de ti? Ele respondeu: Sim. Rabi Agiba perguntou:Acaso estudavas os segredos do carro de Ezequiel (Ez 1)? Ele respondeu: Não. Mas eu estava sentado e fazia um colar das palavras da Torah, passando da Torah aos Profetas e dos Profetas aos Escritos e as palavras mostravam-se alegres, como quando foram transmitidas no Sinai. E eram doces, como quando foram proferidas pela primeira vez, porque, ao serem dadas pela primeira vez, não foram dadas no fogo: E a montanha flamejava?' (Cântico Rabá 1, 10).

A narrativa do "fogo que flamejava" em torno dos Rabis que faziam o colar de versículos da Torah está presente em diversas fontes da tradição judaica, e traduz, sem dúvida, uma forte experiência espiritual vivida por aqueles anciãos que, pela intuição, alcançaram aquilo que faz a Escritura ser una e coerente - seu sentido espiritual" (DIAS, Haroldo Dutra. Parábolas de Jesus: Texto e Contexto. Curitiba: Federação Espírita do Paraná, 2011. p. 17.

Kardec na Introdução de "O Evangelho segundo o Espiritismo", item III - Notícias Históricas deixa claro que:

"Para bem se compreenderem algumas passagens dos Evangelhos, necessário se faz conhecer o valor de muitas palavras neles  frequentemente empregadas e que caracterizam o estado dos costumes e da sociedade judia daquela época. Já não tendo para nós o mesmo sentido, essas palavras foram com frequência mal-interpretadas, causando isso uma espécie de incerteza. A inteligência da significação delas explica, ao demais, o verdadeiro sentido de certas máximas que, à primeira vista, parecem singulares".

No capítulo IV de "O Evangelho segundo o Espiritismo", Kardec esclarece que a reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus sob o nome de ressurreição. Cita, ainda, o Evangelho segundo Mateus (11: 12-15) que diz: "Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o Elias que há de vir".

E, para se deixar claro que está nesta passagem se tratando de reencarnação mesmo, vejamos as palavras de irmãos da crença judaica: "Pouquíssimas pessoas sabem que a _Reencarnação_ é, antes de tudo, _crença judaica_, e se está no Judaísmo teria que estar no Tanách [Bíblia judaica]" - Avraham Avdam Ben Avraham Corrêa, no Prefácio ao livro "Analisando as Traduções Bíblicas", de Severino Celestino da Silva.

O Rabino Rafael Shammah diz: "Toda pessoa vem ao mundo com uma meta específica que deve alcançar em sua vida. Se o homem não terminar sua missão, voltará em outra encarnação. Como não sabemos exatamente qual a meta de cada um, nos guiamos pelo objetivo comum a todos que é fazer o bem através de Torá [Lei] e Mitsvôt [boas ações]. Esta é a missão que nos cabe a todos os Iehudim [Judeus], e devemos nos esforçar ao máximo para cumpri-la da melhor forma". "Pensamentos", p. 1.

Diante destes esclarecimentos e das palavras de O Espírito da Verdade no Prefácio de "O Evangelho segundo o Espiritismo": "Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas hão de ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos", é que vemos o quão importante é para o espírita o se debruçar nos estudos das Sagradas Escrituras, no caso a Bíblia Cristã.

Campos dos Goytacazes, 07/03/2018.

(*) Leonardo Paixão é trabalhador espírita em Campos dos Goytacazes, RJ, colaborando com amigos de Ideal no Grupo Espírita Semeadores da Paz.

sábado, 2 de dezembro de 2017

MEDIUNIDADE RESPONSAVEL

Allan Kardec ao descortinar o Mundo Invisível, não o fez sem que o raciocínio apurado estivesse a frente de suas pesquisas e nem sem que o Evangelho do Cristo fundamentasse a Sua Obra!

Médiuns!

Vossa responsabilidade e imensa!

Vossa caminhada não oferece flores por toda a estrada;

Vosso compromisso e gravíssimo;

Olhai para dentro de vos sempre;

Calai ante as criticas e o falatório desarrazoado;

Zelai pela correção doutrinaria não abrindo campo as investidas dos inimigos desencarnados da Doutrina que desejam imiscuir nos Centros do Espiritismo-Cristão, praticas que nada tem a ver com a simplicidade e pureza do Evangelho;

Acatai as orientações dos Benfeitores da Humanidade que deixaram suas Instruções através de varias mãos que, em conjunto com o Codificador trabalharam na Restauração do Cristianismo;

Disciplinai-vos em vossas reuniões, evitando conversações ruidosas no período anterior e também no posterior ao trabalho que se inicia antes e não termina apos o horário estabelecido para o fechamento da reunião no Plano Físico, Benfeitores vos aguardam para a sua continuidade no Plano Astral;

Buscai conduzir-vos no equilíbrio e, para isso, não esqueçais de orardes diariamente pelos irmãos sofredores que por vos mesmos e por companheiros outros trouxeram suas dores vivas para serem aliviadas;

Jesus vos aguarda por servidores fieis de Sua Vontade!

Dignifiquemo-nos para dignificarmos a Sua Obra!

Alberto, guia do médium
(Pagina recebida pelo médium Leonardo Paixão em reunião do Grupo Espírita Semeadores da Paz, Campos, RJ, no dia 20/11/2017).




quinta-feira, 30 de novembro de 2017

MENSAGEM DO ESPÍRITO BEZERRA DE MENEZES



Meus filhos!
Jesus conosco!

Além da noite brilha uma alvorada de Paz!

A Humanidade vive momentos de trevas, de caos, são as convulsões morais que Allan Kardec já antecipava no cap. XVIII - Sinais dos Tempos em sua obra "A Gênese - Os milagres e as predições segundo o Espiritismo".

A hora, meus filhos e filhas da Alma, é de testemunho. Não mais o testemunho de vossos próprios corpos, mas sim, os testemunhos de vossa coragem moral em não soçobrar ante as tempestades que se fazem e que se farão por ser movimento próprio à transformação que, mais que por fora, se faz no interior do homem.

Os Espíritos Benfeitores da Humanidade - aqueles mesmos que tertuliavam com Allan Kardec - estão atentos a este movimento de transição e contam com o não arrefecimento do ânimo dos discípulos de Jesus, que sois todos vós, a permanecerem em Sua Obra, deixando de lado visões pessoais em relação a tal ou qual assunto, bem como suscetibilidades próprias à personalidade que mais busca a própria satisfação do que o auxílio desinteressado ao outro.

Lembremos destas palavras do Cristo de Deus: "Meus discípulos serão reconhecidos por muito se amarem" - João, 13: 35.

Eis aí a força do Amor a tudo vencer, em nome de Deus.

Que Jesus e a Sua Mãe Santíssima nos abençoe e envolva em Sua Paz!

Bezerra de Menezes
(Página recebida pelo médium Leonardo Paixão em reunião pública do Grupo Espírita Semeadores da Paz, Campos, RJ, no dia 19/11/2017).